Theos ek petras, to petroghenos Mithra

SERMO MYTHICUS

“Une organisation réellement vivante n’est jamais linéaire, elle est sphérique. Elle tend à se fermer sur soi, comme un fruit.”― Raymond Abellio

“Em todo o lado igual si próprio, absolutamente infinito, é o Esfero circular, que goza da solidão que o envolve totalmente.”― Empédocles

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ACTO I
2009 – 2016
― O MUNDO COMO VONTADE ―
Et quid amabo nisi quod aenigma est?

“Chirico est, en somme, un peintre religieux. Un peintre religieux sans la foi. Un peintre du mystère laïc. Il lui faut des miracles. Son réalisme l’empêche de peindre des miracles  auxquels il n’ajouterait pas foi. Il faut donc qu’il en produise en dépaysant des objets et des personnages.”― Jean Cocteauo

No decurso destes sete anos, o pintor italiano Giorgio de Chirico, através da sua premissa “E o que devo amar senão o enigma?”, assumiu o papel de figura tutelar. Esta foi a época da contemplação activa. Período de iniciação mistérica sumarizado no ensinamento de Cícero – “O Cosmos, qual demiurgo, é o pai e garante de tudo”: SATOR OMNIA CONTINET.

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ACTO II
2017 – ….
― O MUNDO COMO REPRESENTAÇÃO ―
Theos ek petras, to petroghenos Mithra

“The brightness of the hvareno, of the glorious and radiant Mithraic halo, arises only out of a frightful tension, and it only crowns the “eagle” which was capable of “staring” at the Sun.”―Julius Evola

“O Fogo extinguiu-se, a lareira foi fechada, a televisão chegou. Os média roubaram a narrativa, deixando-nos com a interminável repetição da fala, e não da conversa. O negro não é a canção deles, é a tua.” ― Derek Jarman

Para Michel de Certeau, as Ideias tornam-se uma mediação entre o Espírito (Geist) e a realidade sociopolítica. Supõe-se que constituem um nível onde se reencontra o corpo da História e a sua consciência, o Zeitgeist. Importa, pois, proceder ao questionamento sobre o paradoxo que pesa sobre a nossa civilização, que forneceu ao mundo as técnicas de produção, reprodução e comunicação de imagens, e em que, por outro lado, a sua filosofia faz prova de uma desconfiança iconoclasta endémica, responsável pela “destruição” das imagens que considera suspeitas. A génese deste iconoclasmo “monotonamente monoteísta” remonta a Aristóteles, passou para São Tomás de Aquino e enfermou o Século XIX (Positivismo, Cientismo, Historicismo). Durante mil anos Aristóteles foi o Mestre da Escolástica e à medida que os séculos passaram esta filosofia tornou-se num sistema. Aristóteles impôs uma sombra sobre a Idade Média. Um manto de silêncio. Quando o Império Romano caiu, os iconoclastas travaram uma guerra contra a imagem solene. Abriu-se um abismo entre os mundos celeste e terreno.
Mais recentemente, o passado século XX assistiu à edificação de uma “civilização da imagem” graças aos gigantescos progressos técnicos da reprodução visual (Fotografia, Cinema, “imagens sintetizadas”, etc.), bem como nos desenvolvimentos ocorridos nos seus meios de transmissão (Televisão, Telefax, Internet, etc.). Perante uma tal inflação da IMAGEM, seria de esperar uma radical mudança de paradigma nos nossos sistemas filosóficos, até ali dependentes da “Galáxia de Gutenberg” (a supremacia da Imprensa, da comunicação escrita – prenhe de sintaxes, retóricas, e metodologias do raciocínio –), e, por consequência, o triunfo da IMAGEM MENTAL (imagem perceptiva, imagem recordação, fantasma, etc.) ou icónica (ou seja, as figurações pintadas, desenhadas, esculpidas, fotografadas). Tal inovação civilizacional permitiu recensear e eventualmente classificar – naquilo a que designamos como o IMAGINÁRIO – o “museu” de todas as imagens passadas, possíveis, já criadas ou em devir, os quais, graças ao estudo exaustivo dos processos da sua produção, da sua transmissão, da sua recepção, não terão provocado uma ruptura, uma verdadeira revolução cultural na filosofia de BIBLIOTECA e de ESCRITA, apanágio bimilenário do Ocidente?
As restantes civilizações, as não ocidentais, nunca cindiram as INFORMAÇÕES (as “verdades” transmitidas pela IMAGEM e pela ESCRITA: os hieróglifos egípcios ou os caracteres chineses, de origem ideográfica (em que o signo escrito copia uma coisa através de um desenho mais ou menos estilizado, e em que não reproduzem apenas os signos convencionais, alfabéticos, os sons da linguagem falada), misturam de forma eficaz uma profusão de signos visuais e sintaxes abstractas. Algumas civilizações, como a América pré-colombiana, a África Negra, ou a Polinésia, entre outras, possuíam um sistema de objectos simbólicos bastante rico, sem jamais utilizarem a ESCRITA. Na verdade estas civilizações, distantes de fundarem o seu princípio do REAL sobre uma VERDADE única, sobre um modelo único do ABSOLUTO sem rosto, inominável no seu limite, estabelecem o seu universo mental, individual e social, sobre fundamentos plurais, logo diferenciados: o POLITEÍSMO DE VALORES (expressão cunhada por Max Weber), designa uma diferença de figuração, as qualidade figuradas, imaginadas.
Todo o politeísmo é, portanto, ipso facto, acolhedor de imagens (iconófilo), votado ao culto dos ídolos (eidôlon, em grego significa “imagem”). Infelizmente, o Ocidente, a civilização que molda a nossa mundividência, desde o triunfo da razão socrática e do seu posterior baptismo cristão, adveio em soberba herdeira de uma VERDADE ÚNICA, tornando-se uma feroz opositora das imagens.

GRATIA Aby Warburg, André Masson, Carl-Gustav Jung, Ernst Jünger, Georges Bataille, Georges Dumézil, Gilbert Durand, Julius Evola, Karl Kerényi, Mircea Eliade, Pierre Klossovski, René Guénon, Roger Caillois.

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