Que giro! (ainda sobre as “novas” ditaduras culturais)

Se existe censura em Portugal, em 1986? Existe, claro que existe! Na televisão, ela é declarada. Têm sido públicos os casos de interferência do poder executivo na proibição de filmes, reportagens ou notícias. Nos outros meios de comunicação social, principalmente na imprensa escrita e na rádio, creio que a censura que existe é sobretudo aquela que eu apelido de “censura oculta”, ou seja, aquela que é exercida no tecido social pelos vários grupos censurantes, através de refinados mecanismos e formas indirectas. É aquela que resulta do jogo escondido das forças sociais, é o exercício discreto da burguesia.

–  Paquete de Oliveira em entrevista à editora Ama Romanta, 1986

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Robert Mapplethorpe

Recordo-me perfeitamente do dia em que vi pela primeira vez o trabalho de Robert Mapplethorpe. Tinha eu 25 anos de idade e geria uma das livrarias da Valentim de Carvalho.  Quando abri, um pouco ao acaso, uma monografia sobre a obra do fotógrafo norte-americano, foi como que se tivesse levado um murro no estômago. A minha mundividência, alicerçada nos cânones da heteronormatividade (para usar uma terminologia que começa a estar muito em voga), ficou, na altura, um pouco estarrecida, confesso.
As fotografias publicadas naquele livro provocaram-me. Mas não será esse o verdadeiro propósito das manifestações artísticas?
Desviando-me um pouco da noção batailliana da Arte enquanto despesa improdutiva, acredito que a Arte deve provocar (do latim – provoco, –are, chamar para fora, mandar sair, mandar vir, estimular, exortar, desafiar, apelar). E era isso mesmo que a exposição de Mapplethorpe, em Serralves, deveria ter feito. Em vez disso, parte das fotografias, de acordo com aquilo que li na imprensa, ficaram escondidas do olhar do público (que coitadito, tem de ser protegido pelas auto-proclamadas elites culturais – como que se uma grande parte desse mesmo público não navegasse, pela calada da noite, pelo menos assim presumo, nos pornhubes e nos redtubes, ou até nos rewinds dos filmes da Erika Lust e do Rocco Siffredi).
Na verdade, Serralves passou a representar a normatividade e a hipocrisia burguesa (e não fascista como vituperam alguns). Esta burguesia é aquela que aos Domingos se passeia pelas salas desta instituição, e que a cada dois minutos exclama com enorme auto-satisfação “Que giro!”. Esta burguesia é também o Serralves em Festa, com os seus milhares de visitantes. É aquela que vai visitar a exposição da Joana Vasconcelos, já agendada para Serralves, mas também é a mesma que esteve na de Paula Rego, na do Francis Bacon e na do Amadeo de Souza Cardoso. É ainda aquela que gosta da capa do Horses da Patti Smith, e que comprou na Fnac o Just Kids. Afinal de contas “É giro!”, não é?
E então, qual é a minha opinião sobre a alegada censura institucional? (devem perguntar-se os meus leitores já com alguma impaciência). Pois bem, acho que desde a exposição da Nan Goldin e do concerto de Merzbow, nos inícios da década passada, foram muito poucas as coisas verdadeiramente interessantes que por lá passaram. Um museu deve ser uma instituição viva, fechar-se sobre si próprio, prosseguir a sua missão e não incentivar/pactuar com a ausência de espírito crítico que perpassa a sociedade portuguesa (é no mínimo constrangedor verificar que actualmente já nem é o sexo dos anjos que se discute, mas sim a sexualidade de uns bonecos animados…). Os museus devem ser núcleos difusores de conhecimento, mas também devem desafiar a sociedade envolvente. Um museu ao serviço do regime (e dos seus artistas) é uma instituição morta.
Devem, no entanto, cumprir a legislação dos países onde operam, tipo o decreto-lei 23/2014? Claro que sim. Coloquem lá os avisos legais necessários e depois a “cada cabeça a sua sentença”. Caso contrário, a Arte de contornos transgressores e/ou outsiders (mesmo aquela que já se encontra validada), vai ter de se mudar de armas e bagagens para instituições como o centenário Círculo Católico de Operários do Porto, o Estúdio 111, ou até mesmo para a Faculdade de Belas Artes desta mesma cidade. E olhem que eu sei do que é que estou a falar.