“Switching Mirrors” – Vanessa Sinclair

Ao longo da minha vida tenho tido o privilégio de conhecer pessoas verdadeiramente extraordinárias. Nesse leque restrito de indivíduos, tenho constatado a existência de um padrão comum, o qual se fracciona de uma maneira tríplice: o despojamento do ego, o enorme espírito de resiliência e uma ética pessoal assente na construção de laços interpares numa óptica de ir sempre um pouco mais além. Por esta altura certamente já repararam que me estou a referir a uma estirpe de pessoas usualmente designadas como visionários. Ou seja, todos aqueles que assimilando o legado dos seus percursores não hesitam em seguir uma via pessoal, um caminho único, o qual, no futuro, indubitavelmente, deixará as suas marcas para que depois possa surgir outra leva de mentes inquietas: os eternos portadores da luz.

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Vanessa Sinclair, psicanalista norte-americana, é um desses indivíduos. O final do ano passado assistiu à edição da sua primeira obra literária, intitulada Switching Mirrors. Um livro de poesia que assenta na técnica cut up.
A utilização de recortes como processo criativo tem a sua génese no movimento Dada, com Tristan Tzara, nos anos 20 do século passado. Posteriormente, na década de 50, este método é desenvolvido com um maior grau de profundidade por Brion Gysin, que o transmite a William S. Burroughs, o qual, por seu turno, o transmitiu a Genesis P-Orridge (quase como uma espécie de cordão dourado homérico). Um dos aspectos mais interessantes desta técnica reside na atribuição de novos sentidos, por vezes quase numa perspectiva mântica. A sua utilização como método para alterar a realidade, através de novas elaborações semânticas carregadas de sincronicidades (na acepção junguiana do termo), valida um outro conceito defendido por JungUnus mundus. O conceito de uma realidade subjacente unificada a partir da qual tudo emerge e para a qual tudo retorna.
Este é um livro que habita um outro universo, paralelo à psicopatologia do cinzento quotidiano que nos agrilhoa a uma existência meramente passiva. Em Switching Mirrors, os leitores são desafiados a expandirem a sua própria mente. Uma coisa é certa, Vanessa Sinclair é uma mente inconformada e o seu nome ainda dará muito que falar nos tempos mais próximos. Resta apenas referir que esta é uma belíssima edição (mais uma!) da Trapart Books, a editora sueca gerida por Carl Abrahamsson. Os livros que este publica denotam o seu esmero e acuidade estética, características que aliás se reflectem em todas as suas outras muitas actividades. Talent de bien faire!
Switching Mirrors consiste numa edição de 230 cópias, das quais foram retirados 23 exemplares assinados e numerados manualmente. O livro pode ser encomendado directamente a partir da editora AQUI.

A entrevista concedida por Vanessa Sinclair a este blogue, no passado dia 28 de Janeiro, pode ser acedida AQUI.