Bibliofilia # 36 “O Sagrado”

(…) E o que aconteceu a Abraão, a Eckhart e a Tersteegen pode ainda repetir-se hoje e até apresentar as mesmas características de uma experiência claramente mística. Numa nota consagrada a um livro sobre a África do Sul [The Inquirer, 14 de Julho de 1923, sobre o livro de O.Schreiner, Thoughts on South Africa, Londres, 1923], encontra-se o seguinte relato «O autor reproduz algumas palavras significativas pronunciadas por um daqueles Boers altos, robustos, decididos e silenciosos, que só falava dos seus carneiros, rebanhos e dos costumes dos leopardos, matéria em que era autoridade. Depois de ter percorrido, durante cerca de duas horas, a imensa planície africana sob o ardor do sol, diz calmamente: Há já muito tempo que Vos queria perguntar uma coisa. Sois instruído, Quando Vos encontrais sozinho numa planície como esta e o sol dardeja os seus raios sobre as matas, não Vos parece que alguma coisa fala? Não quer dizer que ouçais seja o que for com os ouvidos, mas é como se Vos tornásseis tão pequeno e o outro tão grande…Então todas as coisas do mundo Vos parecem como se nada fossem».

Rudolf Otto, O Sagrado

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“O Sagrado”, de Rudolf Otto, Edições 70, 1992. Tradução de João Gama. Título original, “Das Helige”.
Mas afinal o que é o Sagrado? Para o autor alemão, este conceito não significa apenas o «religioso» nem o «irracional», mas um sentimento específico que veicula a manifestação de forças psíquicas inconscientes e onde se misturam, numa espécie de transmutação alquímica, a dimensão racional e irracional da Humanidade. Neste livro, Otto analisa a sensação específica produzida pelo objecto religioso, o sentimento de mistério, do fascinante, do «ganz andere», aqui analisado através de múltiplas manifestações religiosas.
Rudolf Otto (1860 – 1937) foi professor na Universidade de Marburgo, e é considerado unanimemente como um dos maiores mestres do pensamento religioso do século XIX.