Bibliofilia # 33 “TIMOR, ritos e mitos ataúros”

“Embora com variantes, é conhecida em toda a ilha a lenda segundo a qual houve um tempo em que ir ao céu ou vir do céu à terra era a coisa mais fácil deste mundo. Bastava subir por uma trepadeira – uma das muitas espécies que há em Timor, a que, em tétum, chamam caleic – que o ligava à terra.”

Ezequiel Enes Pascoal, A Alma de Timor Vista na Sua Fantasia, Braga, 1967 (citado por Jorge Barros Duarte em Timor, ritos e mitos ataúros)

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“Timor, ritos e mitos ataúros ”, de Jorge Barros Duarte, 1.ª ed., Ministério da Educação, 1984.
A ilha Ataúro situa-se aproximadamente a 25 km ao norte de Díli. A ilha apresenta aproximadamente 25 km de extensão por 9 km de largura, o que compreende uma área de cerca de 117 km², habitada por uma população em torno de 8 mil pessoas. A capital da ilha é o aglomerado urbano de Vila (antiga Maumeta).
No prefácio desta obra valiosa, o seu autor, Jorge Barros Duarte, diz-nos que: “Quando, em fins de 1959, comecei a recolher elementos sobre a religião dos ataúros, a maioria deles ainda era gentílica. Se, por um lado, esta circunstância representava, para mim, uma vantagem para a recolha de material de estudo ainda em relativa pureza, pelo outro, a minha qualidade de sacerdote católico não deixava de ser, em certa medida, um impedimento para conseguir informações e surpreender situações que não fossem acintosamente distorcidas, por motivo de uma natural defesa sigilar por parte do nativo. Este instinto de defesa das suas crenças é tão profundo no indígena que o meu principal informador convertido ao catolicismo em 1959, e estando ao meu serviço desde então, só volvidos sete anos, e depois de me ter iludido umas trinta vezes sobre o mesmo assunto, se decidiu a revelar-me os nomes das divindades ataúros Lé-Káli e Mimítu!… E, quando chegou ao conhecimento de outros indígenas, também já convertidos ao catolicismo, que aquele meu informador me havia revelado muitos segredos da sua religião primitiva, não se coibiram de manifestar a sua reprovação, mesmo na minha frente.”
Em suma, uma importantíssima obra etnográfica. Indispensável a todos os interessados na etnografia timorense.