Ainda sob o “efeito Kirlian”

Quando em meados da década de 90 tomei contacto com algumas das mais significativas bandas italianas à margem do circuito mainstream, um dos aspectos que mais me fascinou foi o carácter transgressor e irracional que as mesmas irradiavam. Refiro-me a nomes como Alio Die, Ain Soph, Camerata Mediolanense, Ataraxia, Tomografia Assiale Computerizzata, Maurizio Bianchi, Atrax Morgue, e Kirlian Camera, artistas cuja actividade reflectia um interesse por certos aspectos mais obscuros da psique.

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E foi esta última banda, os Kirlian Camera, que se apresentou pela primeira vez em Portugal, num concerto realizado no passado Sábado, dia 4 de Fevereiro, no Cave 45. Como a própria designação do projecto liderado por Angelo Bergamini deixa adivinhar (refiro-me ao “efeito Kirlian”, assim nomeado em homenagem a Semyon Davidovich Kirlian, que em 1939 descobriu acidentalmente a possibilidade de fotografar as auras dos objectos/seres), muito do percurso trilhado ao longo das suas quase quatro décadas de actividade assenta na exploração de certas temáticas sombrias.
Ao longo dos tempos, a banda tem assistido a várias metamorfoses. Com um cunho marcadamente electrónico, a sua “imagem de marca” sempre assentou num cruzamento bastante equilibrado entre as batidas gélidas – por vezes com um certo pendor cerimonial – e as heavenly voices das múltiplas vocalistas que por lá passaram: Simona Buja, Bianca Hoffmann-Santos, Suzanne Reddington-Gardner, Emilia Lo Jacono, Nancy Appiah, Barbara Boffelli, e mais recentemente, desde o alvorecer deste século, Elena Alice Fossi.
Infelizmente, pelo menos na minha opinião, nos meados da década passada, os Kirlian Camera, enveredaram por uma abordagem mais direccionada para as pistas de dança, praticando na actualidade um estilo musical muito próximo daquilo que é designado como Eurodance. Constatei esta mudança de orientação aquando da compra (por engano), há um par de anos, do álbum “Shadow Mission HELD V”. Desenganem-se no entanto os puristas se pensam que estamos perante algum crime de lesa-majestade, pois recordo-me de ter lido numa entrevista bastante antiga sobre o enorme apreço que Angelo Bergamini dedicava aos Aqua, (lembra-se do tema “Barbie Girl”!?). A grande “heresia” (atenção que digo isto em tom ligeiro) de Bergamini consiste na inclusão de guitarras no actual elenco da banda.
Contextualizado que está, ainda que em linhas muito sumárias, o passado e a orientação actual desta banda italiana, o que dizer então sobre o concerto do Cave 45?
A audiência que ousou enfrentar a intempérie que se fazia sentir na Invicta, não terá saído defraudada. Falamos de uma audiência composta por conhecedores, de pessoas informadas, que apoiam os seus artistas predilectos, marcando presença nos eventos deste género. Assim, não é de estranhar que a banda italiana tenha sido recebida com uma certa euforia, factor que contribuiu para a empatia verificada durante todo o concerto entre a banda e a audiência. Demarcando-me das minhas afirmações anteriores, as quais obviamente apenas reflectem os meus gostos pessoais, e apesar de ter somente reconhecido um tema, “Eclipse”, em todo o alinhamento, posso assegurar-vos que este foi um concerto de nível bastante elevado. A vocalista, Elena Fossi, com a sua exuberância tipicamente italiana, arrebatou por completo a audiência. No final da performance dos italianos vibrava na sala uma sensação de muito boa energia: o público estava feliz e a banda denotava a sensação de um dever muito bem cumprido.

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E agora, last but not least, resta apenas dizer que os Iamtheshadow, projecto musical fundado em 2015 por Pedro Code (The Dream Collision e Rainy Days Factory), estiveram à altura dos cabeças de cartaz italianos. Inicialmente um pouco sorumbáticos (talvez por alguma ansiedade, de resto perfeitamente compreensível), ao fim de alguns temas, os três elementos da banda descontraíram, tornando-se nos mestres de cerimónia perfeitos para os Kirlian Camera.
Para finalizar, quero agradecer e felicitar a Darkland Events pela audácia manifestada ao trazerem a Portugal um dos nomes fortes da cena alternativa europeia (o Porto vive momentos bastante interessantes e o vosso contributo na oferta cultural da cidade é muito apreciado). Agradeço ainda à Helena Granjo pela gentil cedência das maravilhosas fotos que ilustram este artigo, e ao Granada, que para além de ser uma excelente companhia é  também um dos maiores melómanos que tenho o gosto de conhecer.