Bibliofilia # 27 “Récurrences dérobées”

“Il me faut également préciser que répéter, comme j’y suis accoutumé, que l’imagination n’est rien de plus qu’un prolongement de la matière, n’est nullement de ma part une affirmation sans contrepartie. Elle signifie aussi qu’il existe dans les états le plus ingrats de celle-ci quelque propriété presque impossible à concevoir, en tous cas inexprimable sans le vocabulaire humain, mais, qui, à sa place et avec ses moyens rustiques, anticipe déjà à ce que deviendra, dans un site différent et avec d’autres ressources, ce que nous nommons l’imagination. Je n’ai rien fait qu’essayer l’idée qu’une connivence secrète, la plus lointaine qu’on voudra, continue les innovations de la matière inerte aussi bien dans les exigences d’une économie rigoureuse que par le livre cours de la rêverie.”

Roger Caillois

roger-caillois-recurrences-derobees

“Récurrences dérobées”, de Roger Caillois, Editions Hermann, 1978.
Récurrences dérobées, uma das quatro obras publicadas em 1978 (ano da morte do autor), conta com um curioso subtítulo, que nos faz lembrar alguns daqueles autores palavrosos do século XVIII – Le champ des signes: Aperçu sur l’unité et la continuité du monde physique intellectuel et imaginaire ou premiers éléments d’une poétique généralisée.
Esta é mais das muitas obras que o autor francês dedicou ao campo do Imaginário, um conceito que na sua opinião se encontra prenhe das ressonâncias emanadas pela Matéria. Roger Caillois, na primeira nota, elucida logo o leitor sobre o título primitivo deste estudo: Le preneur de rats de Hameln. Para o autor, a flauta do Encantador de Hamelin faz a junção entre as vibrações que organizam, nalguns casos, a Matéria. Por outro lado, o carácter maravilhoso do conto introduz o devaneio onírico no Imaginário, levando a que o espírito conjecture sobre a inexistência de rupturas de continuidade entre as leis do universo físico e aquelas da fábula, na sua acepção lata. O editor, por seu turno, entendeu que seria melhor optar por um título mais específico. Roger Caillois aceitou. Não sem algum arrependimento, confidencia-nos…
Sem qualquer tipo de remorso ficará, asseguro-vos, o leitor intrépido que ouse adentrar na mundividência inusitada daquele que é certamente um dos mais fascinantes autores que já ninguém lê.