Bibliofilia # 20 “Chroma”

“Escrevi este livro contra o tempo. Se não prestei atenção a lago que consideras precioso – escreve-o à margem. Eu escrevinho os meus livros todos, porque os marcadores desaparecem. Tive que escrever depressa porque o meu olho direito deixou de ver em Agosto devido ao “oh vírus potente!”…e depois foi um confronto com o escuro. E o escuro vem sempre depois da luz. Escrevi o vermelho numa passagem pelo hospital, e dedico-o aos médicos e enfermeiros de St. Bartholomew. A maior parte foi escrita à quatro da madrugada, rabiscando incoerentemente até o sono me vencer. Eu sei que as minhas cores não são as tuas cores. Duas cores nunca são a mesma, mesmo que saiam do mesmo tubo de cor. O contexto muda a percepção que temos delas. Usei habitualmente uma palavra para descrever uma cor, por isso o vermelho permanece vermelho com desvios pelo vermelhão ou pelo carmim. Não incluí fotos as cores neste livro, até porque seria uma tentativa fútil de as aprisionar. Como podia estar certo de que a tonalidade que eu queria seria a reproduzida pela impressora? Prefiro que as cores flutuem e possam voar na tua mente.”

Derek Jarman

20-chroma-derek-jarman

“Chroma”, de Derek Jarman, não (edições), 2ª Edição, 2016. Tradução de João Concha e Ricardo Marques. Título original, “Chroma”.

O mundo das Artes e das Letras possui uma vasta tradição no que concerne à incorporação dos momentos finais da vida de um determinado criador dentro do seu próprio processo criativo. Assim de cabeça, sem pensar muito, recordo-me de uns quantos: Mishima, David Bowie, e, de certa forma até o próprio Leonard Cohen, são apenas alguns dos exemplos. O cineasta britânico Derek Jarman não foi excepção. A perda da visão, já numa fase terminal da doença, inspirou-o à realização de um filme, Blue, e à redacção de um livro, Chroma.
Ao contrário daquilo que o seu autor pode deixar erradamente entender, na transcrição em epígrafe, este não é um livro redigido à pressa. É antes uma espécie de testamento poético, típico de uma mente lúcida, ciente de que a vanitas mundi e as minudências existenciais já não lhe assistem. Chroma não é nem um libelo do desespero nem um manual do conformismo. É “apenas” o fruto das últimas reflexões de uma mente erudita, generosa para com todos aqueles que apreciam o seu trabalho. Obrigado, Derek.

Banda sonora ideal para acompanhar a leitura: Cyclobe, “Luminous Darkness” (1999).