Bibliofilia # 16 “O Castelo da Ceia”

“Senhor, porque me abandonaste? Por que razão devo aprender de uma forma tão crua que um cão equivale a um padre, e que qualquer um me pode iniciar à Vossa ausência? Agora, um suave vaivém escreve na minha língua que todos os dogmas são desprezíveis, porque castram a imaginação e por consequência proíbem toda a Experiência.”

Bernard Noël

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“O Castelo da Ceia”, de Bernard Noël, Fenda, 1ª Edição, 1997. Tradução de Laura Lourenço e Marc – Ange Graff. Título original, “Le Château de Cène”.
Existem algumas chancelas que nunca enganam, e a editora Fenda é um desses casos raros. O meu exemplar de “O Castelo da Ceia”, colocado à venda em Abril de 2003, adquirido na semana passada em Lisboa com um desconto de 80% (1.25€), faz jus a uma das minhas crenças pessoais: os livros malditos aguardam pacientemente pelos leitores certos. E este é mesmo um livro maldito. Publicado inicialmente sob o pseudónimo Urbain d’Orlhac, por Jérôme Martineau, e posteriormente, em 1971, por Jean-Jacques Pauvert, desta vez creditado a Bernard Noël, O castelo da Ceia foi condenado em 1973 pela justiça francesa por atentado aos costumes. De acordo com o autor francês, o episódio da chegada à ilha e a violação pelos cães, bem como o episódio do macaco, parecem ter sido os principais motivos para esta acusação. Os leitores de uma certa literatura licenciosa certamente concordarão comigo: este é um texto capaz de enrubescer as faces de um Georges Bataille, empalidecer um Pierre Klossovski, enquanto reduz a figura de Isodore Ducasse (Conde de Lautréamont) ao estatuto de um menino de coro. A maior decepção do seu autor? O facto de que os seus críticos (e defensores), nunca tivessem chegado a entender este livro como um libelo contra a guerra da Argélia. Resta apenas referir, a título de curiosidade, que a primeira edição portuguesa desta obra contou com o apoio da embaixada de França em Portugal. Mudam-se os tempos, eclipsam-se as vontades.