Bibliofilia # 11 “O Mundo Ardente”

“My mother said the bizarre name Raccoona had surely been inspired, at least on a subliminal level, by the masks raccoons don’t wear but simply have – the ones given them by nature….. [S]he pointed out that Le Guin had suspected all along that Raccoona and Tiptree were two authors that came from the same source, but in a letter to Alice she wrote that she preferred Tiptree to Raccoona: ‘Raccoona, I think, has less control, thus less wit and power.’
Le Guin, Mother said, had understood something deep. ‘When you take on a male persona, something happens.’
When I asked her what that was, she sat back in her chair, waved her arm, and smiled. ‘You get to be the father.”

Siri Hustvedt, The Blazing World

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“O Mundo Ardente”, de Siri Hustvedt, D. Quixote, 2014. Tradução de Tânia Ganho. Título original, “The Blazing World”.
“Este livro vai incendiar o mundo.”, eis a frase que a editora D. Quixote estampou de forma ostensiva na capa da edição portuguesa de O Mundo Ardente, e que consiste num excerto da resenha efectuado pelo Financial Times. Lamento estar em completo desacordo. Este livro, infelizmente, não vai incendiar nada. E nisto estou em total sintonia com as afirmações de Michel Houellebecq, a propósito do seu livro mais recente: Submissão. Ou seja, os críticos do prestigiado diário económico, assim como os editores portugueses desta obra de Siri Hustvedt deveriam saber que a Ficção não possui o condão de mudar o mundo. Apenas os textos panfletários ou os manifestos (por exemplo o Capital ou o Mein Kampf) conseguem acender os rastilhos. Esta afirmação “ígnea”, aqui utilizada com intenções nitidamente comerciais (certamente seleccionada de forma bastante criteriosa pelo departamento de Marketing da D. Quixote), em nada retira o mérito à genialidade da autora norte-americana, que ao longo de 463 páginas narra de forma admirável os desdobramentos hercúleos de Harriet Burden (e das suas múltiplas personas) na ânsia de se afirmar enquanto mulher no mundo das Artes.
Eu diria muito simplesmente que este livro de Hustvedt (perpassado por uma erudição estimulante) é a transposição bastante feliz para os domínios da ficção da obra de Filipa Lowndes Vicente, A Arte Sem História – Mulheres e Cultura Artística (Séculos XVI – XX), editada em 2012 pela Athena.