Obrist + Wizman no Fórum do Futuro

«Foge artista que te fazem doutor. Para onde se me fazem curador?»

Durante seis dias a cidade do Porto será visitada por algumas das mentes mais brilhantes da actualidade (ao contrário daquilo que possa parecer eu não estou a ser irónico), contribuindo desta forma para retirar o tempo de antena aos críticos “tudólogos” do burgo, verdadeiras eminências pardas que em tom hierático se pronunciam prolixamente sobre a diplomacia internacional (alguns até se congratulam e enviam votos de parabéns via redes sociais a recém eleitos secretários gerais da ONU), crises migratórias, estado da Nação, “caça” ao homem, e Futebol, obviamente. Perante este transe colectivo de suma sabedoria “tudóloga”, é com um enorme entusiasmo que aguardo por esta que é a terceira edição do Fórum do Futuro.

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Uma mulher-serpente enrola-se em torno da Árvore do Conhecimento

A frase em epígrafe a este texto consiste numa apropriação das seguintes palavras de Almeida Garret: «Foge cão que te fazem barão. Para onde se me fazem visconde?» O autor redigia esta sentença no intuito de retratar um Portugal onde a ascensão social se encontrava dependente de uma proximidade com o poder político, nomeadamente no reinado de D. Maria II, período em que se distribuíam títulos nobiliárquicos a um ritmo desmesurado. Nos nossos dias, as honrarias monárquicas foram substituídas pelas mui republicanas condecorações Presidenciais. Estas, no entanto, não são as únicas a serem cobiçadas pelos meus compatriotas. Um título muito apetecido hoje em dia é o de curador. Neste campo estamos a par da vanguarda europeia, contribuindo para a corrupção do significado da palavra. Ora reparem na afirmação do suíço Hans Ulrich Obrist: «O termo ‘curador’ está desgastado pelo uso. Eu prefiro a palavra Ausstellungsmacher (fazedor de exposições) ou o conceito de J.G. Ballard do “fazedor de ligações” – conexões entre objectos, não-objectos e pessoas». O director artístico das Serpentine Galleries, em Londres, abordará este tema na sua conferência intitulada “Fazer ligações no século XXI”, que se vai realizar no próximo dia 3 de Novembro em Serralves, no âmbito do Fórum do Futuro. Aos aspirantes a curadores (e os curadores já aspirados) que por algum motivo se encontrem impossibilitados de marcar presença neste encontro, aconselho a leitura de um livro recente de Obrist em parceria com Asad RazaWays of Curating. Eu já o li, e garanto-vos que esta é uma obra de leitura proveitosa.
O outro destaque neste Fórum do Futuro vai para a presença do arquitecto israelita Eyal Weizman, no próximo dia 5 de Novembro, no Teatro Municipal Rivoli. Weizman é o director do Centro de Pesquisa Arquitéctónica de Goldsmiths, da Universidade de Londres, e é também co-fundador da agência de investigação Forensic Architecture, um organismo que tem por missão monitorizar os crimes cometidos pelos Estados e por outras partes através da arquitectura forense, prática através da qual o arquitecto acredita ser possível proceder à criação de novos instrumentos de análise política e de intervenção humanitária. E pronto, encontram-se listadas as minhas sugestões para a próxima edição do Fórum do Futuro, um verdadeiro festival de Pensamento (uma designação deveras feliz da autoria de Paulo Cunha e Silva).
Para finalizar, não resisto a uma última citação. João Lobo Antunes, médico falecido há dois dias atrás (e a quem agora também é moda enaltecer as qualidades humanas e políticas), escrevia naquele que creio ter sido o seu último texto publicado – uma vez que data do passado mês de Setembro -, no prefácio ao livro E Quando Eu Não Puder Decidir? (primeiro volume da série Ética Para O Nosso Tempo, da Fundação Francisco Manuel dos Santos), de Lucília Nunes, o seguinte: «A colecção projectada tem como mote tratar de forma simples e acessível alguns dos tópicos da ética contemporânea que mais parecem ocupar o espírito da sociedade portuguesa, nem sempre bem informada, pelo seu pendor ingénito para argumentar sem conhecimento rigoroso ou sem aprofundar o estudo».
Se calhar fazia-nos mesmo bem argumentar menos e ler, escutar, pensar, mais…