Bibliofilia # 6 “Submissão”

“For these Muslims, the real enemy—the thing they fear and hate—isn’t Catholicism. It’s secularism. It’s laicism. It’s atheist materialism. They think of Catholics as fellow believers. Catholicism is a religion of the Book. Catholics are one step away from converting to Islam—that’s the true, original Muslim vision of Christianity.”

Michel Houellebecq, Submission

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Submissão”, de Michel Houellebecq, Alfaguara, 2015. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Título original, “Soumission”.
Começarei esta entrada afirmando que gosto do Michel Houellebecq. Como poderia eu não gostar de um autor que já consagrou uma obra ao grande (leia-se enorme) H.P. Lovecraft? O livro em questão, editado em 1991, intitula-se H. P. Lovecraft: Contre le monde, contre la vie, e consiste numa análise da vida e obra do habitante mais célebre de Providence, Rhode Islande, Estados Unidos da América. Como se esta façanha já não fosse suficiente, o escritor francês demonstra, pelo menos na sua obra mais recente, estar familiarizado com um dos meus principais maître à penser: René Guénon. Este intelectual francês, nascido em Blois, Loir-et-Cher, em França, cujo nome de baptismo era René-Jean-Marie-Joseph Guénon, morreu com o nome de Abd al-Wāḥid Yaḥyá (al-Mālikī,al-Ḥāmidī ash-Shādhilī), no Cairo, em 1951. No último livro de Houellebecq, o protagonista, François, professor universitário, também se converte ao Islão.
O enredo do livro é muito simples: em 2022 a França, em vésperas de eleições presidenciais, encontra-se dividida. O partido da Fraternidade Muçulmana, numa disputa com a Frente Nacional (de Marie Le Pen) vai angariando um cada vez maior número de simpatizantes. O país que até aí vivia na doce letargia dos reality shows (Houellebecq é condescendente e não refere a hipnose futebolística), e no voyeurismo em torno dos famosos que lhes permitem a consumação das suas fantasias por interposta pessoa, desperta subitamente para a política e toma de assalto as ruas de Paris. Afastado da Sorbonne pela nova direcção islâmica, François exila-se momentaneamente na província. Quando regressa à capital gaulesa depara-se com um cenário irreconhecível. Aí, submete-se à Nova Ordem.
O sexto romance de Houellebecq, Submissão, curiosamente (ou talvez não se levarmos em consideração a existência de uma eventual Sincronicidade, o conceito desenvolvido por Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por uma relação causal mas sim por uma relação de significado), foi editado no dia 7 de Janeiro de 2015. Sim, o mesmo dia do Massacre do Charlie Hebdo. No dia seguinte, 8 de Janeiro, veio parar-me às mãos a edição desse mesmo dia do jornal Le Monde. Na primeira página (ainda guardo esse exemplar), Michel Houellebecq era alvo de dois destaques: 2022 selon Houellebecq (uma caricatura assinada por Plantu), e o convite à leitura, nas páginas 20 e 21, do mini-dossier La folie Houellebecq. Num dos dois artigos dedicados à “loucura” do autor, assinado por Arianne Chemin, Houellebecq é descrito como um ícone finissecular para o novo milénio. A autora vai ainda mais longe na sua afirmação quando o caracteriza como “Un moche, un déprimé, un alcoolique,un exilé-fiscal, uns sans dents…).
Após ter lido Submissão (e de ter colocado de lado as acusações de misoginia e de islamofobia que são dirigidas ao autor) , pergunto-me: será Michel Houellebecq o profeta do fim da civilização ocidental tal como a conhecemos? Eu, que não vejo reality shows nem sigo as vidas das celebridades, sinceramente, estou em crer que sim!