11 questões a KUBIK

“Kubik is an amazing artist. He is moving into a special and particular universe. He has a fantastic records and a fantastic music… He’s a monster!”

Mike Patton (Faith No More, Fantômas, Mr. Bungle)

kubik_foto3

Victor Afonso (aka KUBIK), o compositor radicado na cidade da Guarda, está de regresso às edições discográficas. Depois de “Oblique Musique” (2001), “Metamorphosia” (2005) e “Psicotic Jazz Hall” (2011), editou já neste mês de Outubro o álbum “Rock Extravaganza”. O Die Elektrischen Vorspiele aproveitou esta oportunidade para colocar a conversa em dia com aquele que é um dos criadores mais interessantes do panorama musical nacional da actualidade.

1 – À semelhança de muitas pessoas, também eu tive o primeiro contacto com a música de Kubik em 2001, ano em que “Oblique Musique” foi editado. Este álbum teve uma excelente receptividade junto dos melómanos direccionados para a cena electrónica, algo pouco usual para o primeiro trabalho de um artista. Subscreves a minha opinião? Em caso afirmativo, no teu entendimento, quais foram os factores que contribuíram para essa situação?

Sim, subscrevo a afirmação. No já longínquo ano de 2001 reconheço que a edição de “Oblique Musique” foi uma espécie de pedrada no charco da música nacional. Kubik já tinha tido um reconhecimento prévio em 1999 quando ganhou 4 Prémios Maqueta num concurso nacional de bandas emergentes. Dois anos depois sai o primeiro álbum de Kubik que apanha de surpresa muita gente, crítica inclusive. O jornal Público elegeu Kubik como “artista revelação do ano” e vários jornais incluíram o disco no top dos melhores nacionais. Os factores que contribuíram para este reconhecimento súbito foram sobretudo dois: a originalidade da proposta musical e o efeito surpresa. A originalidade porque “Oblique Musique” desbravou um caminho estético praticamente inexplorado na música portuguesa da altura, com uma música electrónica que misturava experimentação sonora com linguagens mais acessíveis (rock, pop, clássica, world…). E surpresa porque a edição do disco de estreia surpreendeu meio mundo com uma proposta musical e estética nova para o panorama da nova música portuguesa. Para meu espanto, as reacções a este disco de estreia foram muito positivas, com classificações como “Kubik, o cientista visionário dos sons”, “Kubik e o seu universo sonoro muito especial”, etc.

2 – Quando e como é que surge Kubik, o veículo privilegiado da expressão artística do Victor Afonso?

A primeira experiência com música electrónica aconteceu em 1994, ainda quando estudava no curso superior de música quando compus para uma peça de teatro. Depois continuei com experiências nos anos seguintes até que em 1998 lancei a primeira maqueta com o título “Radio Mutation” que chamou a atenção de um crítico musical do Público atento às novidades: Fernando Magalhães. Foi este jornalista que divulgou pela primeira vez na comunicação social o nome de Kubik. Há quem julgue que o nome Kubik advém do realizador Kubrick mas não é verdade. Apesar da minha grande admiração pelo cineasta, o curioso é que em 1999 recebi no Porto 4 Prémios Maqueta dois dias depois da morte de Kubrick e eu dediquei os prémios ao cineasta, daí a ligação que as pessoas ainda hoje fazem.

3 – Em 2004, Mike Patton convidou-te para tocares no concerto dos Fantômas, na Aula Magna. Volvidos 12 anos, que recordações guardas desse momento e qual a importância que lhe atribuis na carreira de Kubik?

Foi um momento único. Há muitos anos que eu era fã de Mike Patton e dos seus múltiplos projectos (Fantômas, Mr. Bungle, Faith No More) e dá-se a sorte (nestas coisas também é preciso ter sorte) da distribuidora do disco “Oblique Musique” ser a mesma que distribuía por cá os discos de Mike Patton, a Sabotage. Esta distribuidora enviou para a editora do Mike o meu disco. Este ouvi-o e gostou de tal forma que em 2004 me enviou pessoalmente um convite para que Kubik fizesse a primeira parte do concerto dos Fantômas na Aula Magna. Foi um dia inesquecível: receber na minha caixa de correio um mail pessoal do Mike Patton a dizer que gostava muito do meu disco e que me convidava a tocar na primeira parte da sua banda, foi como um sonho tornado realidade (para pegar num chavão). Kubik não tem propriamente uma carreira musical no sentido ortodoxo, mas se tivesse que apontar o momento alto dessa suposta carreira, seria este momento. Depois conheci Patton pessoalmente no concerto (super-simpático e acessível) e disse-me que iria ponderar editar o meu próximo trabalho pela Ipecac Recordings. Em 2005 Kubik termina o segundo álbum, “Metamorphosia” e estive em conversações com o Mike para editar pela sua editora, mas por questões de agenda não foi possível.

4 – Até à data já lançaste quatro álbuns: “Oblique Musique” (2001), “Metamorphosia” (2005), “Psicotic Jazz Hall” (2011), e “Rock Extravaganza” (Outubro de 2016). Será que podes fornecer uma vista de passagem sobre cada um destes discos para os leitores do Die Elektrischen Vorspiele menos familiarizados com o teu trabalho?

São 4 álbuns no espaço de 15 anos. A produção não é prolífica porque a minha vida profissional e familiar não me permitiu dedicar-me inteiramente à música. Pelo meio desenvolvi outros projectos (como música para cinema, teatro e performance) e lancei dois EPs em netlabels. Genericamente, poderia classificar a música de Kubik como sendo de exploração sonora, de colagens minuciosas de estilos, de fragmentação estética, de construção e reconstrução musical. A identidade musical de Kubik reflecte-se na liberdade de abordagem e a recusa em seguir cânones e regras instituídas. Ou seja, numa mesma música pode haver referências ao jazz, à world-music, ao corte-e-cola sonoro, ao rock industrial ou à clássica. No universo kubikiano tudo é permitido. “Oblique Musique” (2001) foi o disco de estreia e representou uma moderna explosão criativa, com 17 temas de raiz electrónica mas com ramificações estilísticas imprevisíveis. “Metamorphosia” (2005) foi o disco de amadurecimento, que contou com colaborações especiais nas vozes (Adolfo Luxúria Canibal e Old Jerusalem) e uma abordagem musical que consolidou a estética Kubik. “Psicotic Jazz” hall (2011) foi um álbum que partiu da exploração do jazz como matéria de trabalho para o miscigenar com outras linguagens musicais. Por último, “Rock Extravaganza” aponta para novas direções sem perder a identidade Kubik. É um trabalho menos electrónico no sentido em que utilizei menos samples e toquei mais (teclado, guitarra eléctrica, vozes…). A produção também foi mais cuidada.

5 – Em “Rock Extravaganza”, ao contrário dos teus trabalhos anteriores, cortejas o formato canção na sua vertente mais tradicional. Será este trabalho um ponto de viragem estética no percurso musical de Kubik?

É verdade. Neste álbum há uma certa aproximação ao formato canção mais convencional. Mas é apenas uma aproximação, uma aparência, nunca é uma concretização fidedigna. Quer isto dizer que as músicas nunca assumem totalmente o formato de canção tradicional (estrofe-refrão-estrofe), apenas há um aflorar a tal conceito, visto que Kubik explora sempre um lado menos ortodoxo, como é o tema-título que junta tango argentino com metal ou em “Klaus Kinski’s Kiss” que é um tema electrónico com spoken word a recitar um poema de Charles Bukowski. Neste álbum há também uma canção que é uma homenagem direta ao meu compositor contemporâneo favorito para cinema: Danny Elfman, no tema “Planet Elfman”. Quem conhecer a música deste compositor facilmente entenderá a música de Kubik, naquela que será a canção mais próxima ao formato tradicional.

6 – Este teu novo álbum consiste numa edição de autor, limitada a 200 cópias. Esta é uma opção própria ou uma imposição resultante de vicissitudes externas à tua vontade?

Pensei muito antes de editar o disco: se havia só de fazer uma edição digital online ou apenas física. Depois de falar com editores e agentes de artistas, cheguei à conclusão que era essencial editar online mas também em formato físico de CD. Por um lado, porque gostava de ter o objecto físico do CD, por outro, porque a imprensa ainda valoriza muito os artistas que editam no formato CD (a imprensa nacional quase não divulga artistas que editam exclusivamente online, ao contrário do que se passa lá fora). Por isso achei que a melhor opção seria fazer uma simbiose das duas tendências: edição limitada a 200 cópias numeradas à mão e ao mesmo tempo editar online. Para minha surpresa (ou talvez não) há muita gente a comprar a edição física, mesmo depois de ter ouvido o disco na plataforma Bandcamp.

7 – Podemos contar com uma itinerância de “Rock Extravaganza” pelas salas de espectáculo nacionais?

Sinceramente, não sei. Acabei de terminar o álbum que não foi pensado para ser interpretado ao vivo. Por isso preciso de tempo para adaptar os temas ao formato live act. Depois também depende da procura que haja por parte dos agentes culturais e promotores de espetáculos. Mas a verdade é que não tenho nenhum agente a trabalhar comigo que faça esse trabalho de mediação com os media e com os programadores. Já dei muitos concertos pelo país, mas aconteceram porque fui convidado por antecipação. Veremos como corre com “Rock Extravaganza”…

8 – O quinto tema de “Rock Extravaganza” intitula-se “Nihil Aut Mors”, o nome de um projecto musical no qual militaste no início da década de 1990. Contextualiza-nos, por favor, esta tua primeira aventura sonora.

Lembrei-me de dar esse título ao tema por uma razão que me pareceu natural: pensei “Se os Nihil Aut Mors” continuassem no activo, provavelmente seria este tipo de sonoridade que estariam a praticar”. Esta banda foi muito importante para mim, nasceu no final dos anos 80 e transitou para os primeiros anos dos 90. Os NAM marcaram o panorama português independente e alternativo, e havia quem nos posicionasse ao lado dos então também emergentes Mão Morta. A banda praticava uma sonoridade No Wave pós-punk, misturado com experimentalismo industrial e rock abrasivo. A banda era conhecida pelo facto do cantor cantar em latim. Marcante foi também um concerto mítico na Guarda em agosto de 1989 com os Pop Dell’Arte e GNR. Ainda hoje me falam dos Nihil e desse concerto.

9 – Muitas das tuas composições denotam uma afinidade muito próxima com o universo da Sétima Arte. Qual a importância do Cinema na tua vida, e de que maneira é que o mesmo influencia o teu trabalho?

É verdade que muita gente identifica o meu trabalho com fortes influências do cinema, e com razão. Desde o álbum de estreia, “Oblique Musique”, que trabalhei muitas referências do cinema, desde os títulos de canções, excertos de diálogos de filmes e de músicas cinematográficas, etc. O cinema funciona como uma espécie de alavanca de inspiração. Desde a minha juventude que me viciei em cinema, sobretudo no cinema de autor como Murnau, Tarkovski, Tati, Buñuel, Fellini, Hitchcock, Kubrick, Béla Tarr, etc. Adoro a função imagética da sétima arte, o seu poder de encantamento dos sentidos, a sua força expressiva como forma de arte total. Depois adoro a composição original para cinema, como Danny Elfman (há uma dedicatória de Kubik neste disco) ou os compositores clássicos como Ennio Morricone, Bernard Herrmann, Nino Rota ou Henry Mancini. A música de Kubik evoca muitas dessas paisagens de cariz cinematográfico e cria música para filmes imaginários ou cita outros já realizados.

10 – O facto de viveres e trabalhares na cidade da Guarda condiciona ou, pelo contrário, inspira o teu processo de criação musical?

Esta é uma pergunta recorrente no percurso de Kubik. Isto é, saber se viver na Guarda é uma desvantagem ou uma vantagem. Sinceramente, julgo que há mais vantagens do que desvantagens. A Guarda é uma cidade pequena e conservadora, pacata e sem rebuliço equivalente a Lisboa ou Porto. Sou pai de família e trabalho, mas consigo ter tempo para criar música, tenho sossego e espaço para fazer música. E viver na cidade continental mais alta de Portugal acaba por ser inspirador, estou mais próximo das estrelas e do céu. Já me disseram que estranhavam alguém da Guarda fazer uma música tão ousada e cosmopolita, que podia ser feita em Nova Iorque ou Tóquio. Mas sinto que hoje essa dicotomia já não faz sentido, as fronteiras geográficas estão esbatidas na era da globalização tecnológica. Qualquer miúdo hoje em dia pode estar a fazer a música mais inovadora com um teclado MIDI e escondido num bairro pobre de Manila ou Bratislava. Houve uma vez um crítico do Público que escreveu: “Kubik, o visionário tranquilo que vive na Guarda e dá a sopa a horas às filhas”. É assim que me sinto.

11 – Existem projectos futuros que possas desvelar em primeira mão para o Die Elektrischen Vorspiele?

Para já não. Nunca programei a minha atividade artística a longo prazo, os projectos foram aparecendo. Ainda recentemente trabalhei numa banda sonora para teatro/performance que estreou no teatro Rivoli do Porto. Amanhã ou daqui a 3 meses pode surgir outra oportunidade semelhante. Pode apetecer-me musicar mais um filme mudo. Quanto aos álbuns, entre o primeiro e o quarto passaram-se 15 anos. É muito tempo nos tempos de hoje. E se se reparar bem, o último tema do alinhamento tem por título “Future is Unpredictable”, que explora a passagem do tempo, dos dias e anos e como esta passagem nos afecta. Acho que é um fecho honesto e certo para o disco: o “futuro é imprevisível”, o passado já lá vai com tudo o que significou para nós, e os dias a seguir serão feitos à medida que os nossos sonhos se forem materializando.

kubik_foto1