Bibliofilia # 5 “Elegia para um Americano”

The faculty of memory cannot be separated from the imagination. They go hand in hand. To one degree or another, we all invent our personal pasts. And for most of us those pasts are built from emotionally colored memories.

Siri Hustvedt

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Elegia para um Americano”, de Siri Hustvedt, Asa, 2009. Tradução de Miguel Castro Caldas. Título original, “The Sorrows of an American”.
Eis um livro que à partida não se insere nas minhas áreas de interesse. A sua leitura foi-me sugerida, daí integrar a listagem das obras lidas em 2016.
Elegia para um Americano é um livro curioso, na medida em que cruza a ficção com os domínios do real (ou, pelo menos, de uma aproximação ao real, se levarmos em consideração a afirmação da autora em epígrafe a esta entrada). Nas últimas páginas do seu livro, Hustvedt revela-nos que utilizou parte das cartas que o seu pai redigiu para a sua família, pelo que todos os restantes episódios constituem meros “passeios pelos bosques da ficção” (expressão que tomei de empréstimo a Umberto Eco).
Ao ler as memórias do pai de Hustvedt, descendente de noruegueses emigrados na América, não consegui deixar de fazer um paralelismo com uma outra norte-americana de ascendência nórdica. A 5 de Junho de 2011, na Casa da Música, aquando da apresentação de Delusional, Laurie Andesson partilhava com a audiência as suas reflexões acerca do sentimento trágico da vida. Um dos episódios narrados que ficou na minha memória foi o de Axel, que chegou aos Estados Unidos (Chicago), via Canadá, apenas com nove anos de idade (casado aos dez e pai aos doze) a falar uma língua parecida com o sueco mas que na verdade era o islandês. Este é apenas um apontamento de importância meramente relativa, ainda que  eventualmente evidencie uma certa “nostalgia das origens”, latente nalguns “desenraizados”, habitantes dessa moderna Babilónia que é a cidade de Nova Iorque. E é nesta metrópole que se desenrolam as vidas de Erik, da sua irmã Inga, e de Sonia, a sua sobrinha. Cada um deles encontra-se assombrado com os seus fantasmas pessoais (o abandono, a traição, ou o trauma do 11 de Setembro), pelo que a sua divisa pessoal poderia consubstanciar-se no seguinte mantra: “Sinto-me tão só”.