Bibliofilia # 4 “Número Zero”

Os perdedores, como os autodidactas, têm sempre conhecimentos mais vastos do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deveriam.

Umberto Eco, Número Zero

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Número Zero”, de Umberto Eco, Gradiva, 2015. Tradução Jorge Vaz de Carvalho. Título original, “Numero Zero”.
O meu primeiro contacto com a obra de Umberto Eco efectuou-se através do seu Diário Mínimo, livro inicialmente publicado em 1963. Aquando da sua leitura, há duas décadas atrás, recordo-me de ter ficado fascinado com a genialidade do autor em propor finais alternativos para alguns dos filmes que integram o cânone europeu. Nos anos subsequentes, seguiu-se a leitura de outras obras da sua lavra, cujo destaque vai, obviamente, para dois dos seus livros mais importantes: Apocalípticos e integrados e Viagem na Irrealidade Quotidiana.
Número Zero, o sexto romance do autor italiano, falecido no passado dia 19 de Fevereiro, narra uma série de eventos que têm por epicentro  os preparativos para a fundação de uma publicação informativa, Domani (Amanhã). A personagem principal é um cinquentenário amargurado, Colonna, um looser na melhor tradição americana do termo, que nunca terminou a licenciatura e que leva uma vida profissional a saltar de um emprego para outro. O livro também convoca alguns dos fantasmas recentes da História italiana. O espectro de Mussolini (através de uma rebuscada teoria da sua substituição por um sósia que teria sido linchado em sua vez, e subsequente fuga do Duce para a Argentina) perpassa todo este Número Zero. Não vale a pena desvelar muitos mais pormenores sobre o livro. Este lê-se de uma assentada, ainda que não seja uma obra-prima. O autor, na minha humilde opinião, tece uma trama que a certo ponto se torna monótona e confusa.
Sendo a última obra de Umberto Eco, certamente redigida enquanto doente terminal, pareceu-me encontrar a metáfora perfeita no primeiro Capítulo, “Sábado, 6 de Junho de 1992, 8 horas”, para aquele que imagino como o seu estado de espírito no período crepuscular da sua existência.  Neste capítulo introdutório, é possível percepcionar um infundíbulo cronossinclástico (para utilizar aqui a terminologia cunhada por Kurt Vonnegut), ou seja, uma fissura no espaço – tempo, em que o autor/personagem nos desvela a sua angústia perante a ameaça letal que o espera no exterior, pronta a invadir o domínio privado da sua existência. “O medo de morrer dá fôlego à memória”, afirma o autor/personagem logo na conclusão do primeiro capítulo. É assim que o imagino, a terminar a sua derradeira obra, acossado e com uma miríade de recordações que em breve se desvaneceriam para todo o sempre.