Bibliofilia # 2 “Petit Dictionnaire du Dandy”

Le dandysme n’est même pas, comme beaucoup de personnes peu réfléchies paraissant le croire, un goût immodéré de la toilette et de l’élégance matérielle. Ces choses ne sont pour le parfait dandy qu’un symbole de la supériorité aristocratique de son esprit.

Charles Baudelaire, Le Dandy.

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“Petit dictionnaire du Dandy”, de Giuseppe Scaraffia, Éditions Sand, 1988. Tradução do italiano por Henriette Levillain. Título original, “Dizionario del Dandy”.
Esta é uma obra curiosa, e única no seu género (eu pelo menos não conheço assim muitas sistematizações em torno do tema analisado). O meu exemplar, adquirido num dos alfarrabistas presentes na última edição da Feira do Livro do Porto, possui a seguinte dedicatória, assinada em 6 de Abril de 1989: “Para o Álvaro, um esteta em movimento”. E esta é, efectivamente, uma obra para indivíduos em permanente ebulição. Com esta afirmação estou a excluir os pretensos metrossexuais que mais parecem decalques do CR7, bem como todos aqueles que perfilham a estética hipster. Porquê? Basicamente, porque a efervescência destes assenta, por norma, numa rebeldia efémera (rapidamente diluída aquando da estabilização profissional e do firmar dos votos matrimoniais), protegida pela mentalidade de grupo típica de uma manada apenas aparentemente transviada. Nestes sobressai o culto da réplica. O dândi, pelo contrário, pertence a uma escassa minoria, é um membro do reduzido grupo de outsiders que exercem a sua soberania individual nas margens da sociedade.
Segundo Giuseppe Scaraffia, a sofisticada estética da exclusão praticada pelos dândis nasceu em Inglaterra, na segunda década do século XIX. Para este autor italiano, professor na Università degli studi di Roma «La Sapienza», também autor de programas culturais na RAI, onde se destacam as entrevistas por si efectuadas a vultos como Ernst Jünger, Claude Lévi-Strauss e Jean-Pierre Vernant, o dândi possui uma descendência deveras ilustre: o conde de’Orsay, Disraeli, Baudelaire, Oscar Wilde, Barbey d’Aurevilly e Robert de Monstquiou. Estes estetas do inútil, cultores do Belo, também apelidados de forma bastante feliz como “filhos das flores” (uma designação atribuída por Umberto Eco, se não estou em erro), prolongam-se até às personagens literárias: Julien Sorel, Lucien de Rubempré, Lord Henry, o barão de Charlus, e o meu predilecto Des Esseintes (criação do génio literário de Joris-Karl Huysmans).
O livro de Scaraffia, redigido num estilo elegante, encontra-se perpassado por uma erudição ligeira que possui o condão de seduzir o leitor página após página. O pequeno dicionário do dândi é precedido por um capítulo introdutório, intitulado “Lions et dandys”. Composto por uma quarentena de páginas, este capítulo relata alguns episódios mais ou menos anedóticos à medida que deambula pelas biografias de figuras como Pierre Drieu La Rochelle, sem deixar de evocar a influência e inspiração de indivíduos como Gabriele d’Annunzio. O dicionário começa com a palavra Animal e termina com o termo Vulgaridade. Apensa à obra encontra-se uma selecta bibliográfica, que sem pretender ser exaustiva constitui, ainda assim, um indispensável guia introdutório a todos quantos desejem devir em aristocratas do espírito.