Bibliofilia # 1 “Bibliotecas Cheias de Fantasmas”

“Uns gostam de cavalos, outros de animais selvagens; eu, desde a infância, fui tomado pelo prodigioso desejo de adquirir, possuir livros.”

IMPERADOR JULIANO

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Estamos em meados de Outubro, e eu apercebi-me que desde o início do ano já li cerca de 60 livros (faço aqui um parênteses no sentido literal do termo, na medida em que este “já” também poderia ser um “só”. Em 2015 “só” digeri 37 obras, por oposição a 2007, um ano “já”, com um total de leituras a perfazer a bela soma de 162. 2011 também foi um ano “já”, com um total de 109).
Desde 2003 que aponto num caderninho todas as minhas leituras. Este pequeno gesto, aparentemente obsessivo, surgiu da necessidade de exercer um controlo sobre um hábito compulsivo: a leitura, obviamente. Na verdade, esta necessidade de autodisciplina apresenta alguns benefícios, nomeadamente: ajuda-me a colocar uma certa ordem numa biblioteca em permanente crescimento; aguça-me o discernimento aquando da organização das leituras consideradas prioritárias, e, desta forma, evito a tentação de cair em leituras repetidas. Esta disciplina também serve de barómetro emocional. Um olhar retrospectivo permite-me constatar que no decurso de uma década, os anos mais produtivos (a até os mais árduos a nível profissional) foram aqueles que apresentam um maior volume de leituras efectuadas. Manter estas listagens é, também, de certa maneira, uma forma de autoconhecimento.
Este ano, que agora finda, decidi fazer uma espécie de upgrade ao método da criação de listas anuais, pelo que, a partir de agora, todas as minhas leituras, serão alvo de breves reflexões – e por vezes de resenhas – neste mesmo blogue. Será, de certa forma, o recuperar de um exercício efectuado em 2011, nas páginas do jornal semanário O Diabo.
Começo esta rúbrica com um livro de amor aos livros. “Bibliotecas Cheias de Fantasmas”, da autoria de Jacques Bonnet, foi editado entre nós pela Quetzal, já em 2010. O autor francês trabalhou muitos anos como editor, antes de se dedicar ele próprio à escrita. Esta característica outorga-lhe um domínio completo quer sobre as vicissitudes inerentes ao mercado editorial, quer às idiossincrasias intrínsecas ao ofício de escritor. E este é um livro que eleva o seu autor à dimensão de um Alberto Manguel (ainda que este agora, infelizmente, aceda a prefaciar livros de autores paupérrimos como Valter Hugo Mãe).
A pequena obra começa, através de uma espécie de exergo, com a candidatura de Fernando Pessoa, em 1932, ao lugar de conservador-bibliotecário no Museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, informando-nos que o excelso poeta foi preterido relativamente a um “pintor obscuro” (ontem como hoje, a mediocridade vence sempre o génio). A narrativa de Bonnet estende-se depois por nove “deliciosos” capítulos (não resisti a apropriar-me de uma expressão cara ao saudoso Carlos Pinto Coelho), pejados de episódios umas vezes inusitados, outras vezes didácticos. O meu destaque, no entanto, vai para os dois capítulos subordinados às práticas de arrumação/classificação, e de leitura, em que o autor nos relata o seu próprio exemplo.
“Bibliotecas Cheias de Fantasmas” é um livro apaziguador. Ajudou-me a discernir em que lado da barricada me encontro. Sim, que nestes casos de amor exacerbado aos livros é frequente uma pessoa pensar se pertence ao ramo dos bibliómanos (um sintoma de uma desordem obsessivo-compulsiva que envolve o coleccionar aleatório de infindáveis pilhas de livros, sem que estes sejam lidos, com o prejuízo das relações sociais e da própria saúde), ou então dos bibliófilos (aqueles que amam os livros, mas que, por norma, apenas se dedicam a coleccionar determinadas obras ou autores. Melhor dizendo, um especialista!). Pessoalmente conciliei-me comigo próprio, ao constatar que pertenço a uma estirpe situada por entre as duas taxonomias referidas anteriormente: a do leitor-bibliófilo.
Para finalizar, resta-me apenas referir que uma das lições que o leitor tirará da leitura deste livro, é a de que por detrás da biblioteca de cada individuo encontra-se espelhada a complexidade da sua personalidade.