Alan Courtis & Cyrus Pireh – “Coils On Malbec”

“Because the eye gazes but can catch no glimpse of it, it is called elusive. Because the ear listens but cannot hear it, It is called the rarefied. Because the hand feels for it but cannot find it, it is called the infinitesimal. … These are called the shapeless shapes, Forms without form, Vague semblances. Go towards them, and you can see no front; go after them, and you see no rear.”

C.G. Jung, Synchronicity: An Acausal Connecting Principle

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Formato: LP (vinil púrpura translúcido)
Número Catálogo: SHIN-053
Prensagem: República Checa
Edição: Setembro 2016

Aproveito esta resenha para efectuar duas confissões. A primeira reporta-se à minha total ignorância naquilo que concerne aos vinhos que não sejam produzidos em terras lusas. A segunda visa espelhar o assombro que me acomete sempre que sou confrontado com uma “coincidência significativa” (Sincronicidade) na acepção cunhada por C.G. Jung.
No passado Domingo (2 de Outubro), enquanto contemplava o Atlântico, tive a oportunidade de degustar pela primeira vez um vinho argentino. No rótulo da garrafa encontrava-se inscrito um nome para mim enigmático – Malbec. (Vim a descobrir posteriormente que é um tipo de uva proveniente da região francesa de Cahors, que encontrou condições de excelência na Argentina. Neste país, a uva, está na origem de imensos vinhos frutados, muito macios, de bom corpo, de cor escura. Deve ser consumido jovem. Esta casta é amplamente utilizada pelas empresas vinícolas argentinas, as quais, ao que parece, produzem 59% da plantação mundial).
No dia seguinte, segunda-feira, 3 de Outubro, para minha grande estupefacção, recepcionava na minha caixa de correio o álbum “Coils On Malbec”, um disco creditado ao argentino Alan Courtis e ao músico norte-americano Cyrus Pireh. Cyrus possuiu ascendência iraniana e já visitou Buenos Aires por diversas vezes. Courtis, por sua vez, é um criador de enorme reputação internacional. Com os seus Reynols publicou o primeiro disco desmaterializado da História.
Na criação deste registo foram utilizadas bobinas (importadas de Minneapolis) para a captação do electromagnetismo dessa variedade de vinho. O disco consiste em dois longos temas processados depois das gravações efectuadas em 2014.
No site silencio.com.ar, Courtis explana que: “En realidad, estamos todo el tiempo cruzados por frecuencias electromagnéticas, pero no es algo a lo que se le preste mucha atención. Esta bobina se la poníamos al vino, estuvimos toda una tarde grabando los sonidos, y el disco lo armamos con eso. Nos pareció divertido hacerlo con vino y, ya que estábamos en la Argentina, hacerlo en malbec, aunque podríamos haber aplicado esas bobinas sobre cualquier cosa. Pero es como una cosa temática que después se llevó más lejos con hacer el vinilo color vino. La experimentación muchas veces no se mete con cosas cotidianas, por eso nos pareció interesante hacerlo con el vino”.
No decurso do processo de gravação, o Malbec encontrava-se depositado em copos sobre os quais os músicos passavam a bobina, sem saberem de antemão qual o tipo de sons daí resultantes, na medida em que não era preocupação da dupla uma abordagem científica a este
Eis-nos perante um excelente registo discográfico, inserido na melhor tradição experimental, que rende uma justa homenagem a uma excelente casta vinícola, questionando simultaneamente as possibilidades que o vinho pode oferecer como fonte sonora de base para a criação musical.
Recomenda-se vivamente a sua escuta, sem qualquer tipo de moderação, ainda que seja apenas indicado para mentes audazes, mormente todos aqueles com uma elevada apetência para a música electrónica de vanguarda.
Concluindo: que ilações posso eu retirar desta sequência de eventos? Jung desenvolveu o conceito de de Sincronicidade no sentido de explicar que tudo no Universo se encontra interligado através de um tipo de vibração em que duas energias, uma física e uma não física, estariam em sintonia, potenciando a ideia de que certos eventos isolados parecem repetidos, só que em perspectivas diferentes. Importa apenas frisar que aquilo que define a Sincronicidade não são as coincidências e os seus significados, mas sim a conclusão de que tudo no universo está unificado por tipos de vibrações e de dimensões: UNUS MUNDUS.