“Hypnerotomachia Poliphili” da Biblioteca Pública do Porto

«Le dirais-je? Amour tourmentait le tendre Poliphile: les traits de Polia, toujours présents  à ma pensée, occupaient mon ame tout entiere ; je m’enivrais du plaisir de les reproduire sans cesse ; ils remplissaient ma vive imagination des charmes de Polia ; et le sommeil en étendant ses voiles sur mes yeux appesantis ne put me ravir en entier le bonheur d’y penser, ne put m’ôter pour longtemps le plaisir de la voir. »

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Bacchus Triumphator,  de falo erecto e despojado de pudor.

O excerto em epígrafe pertence ao primeiro capítulo da obra “Hypnerotomachia Poliphili”, tradução francesa editada em 1956 pelas Éditions du Cap (Monte-Carlo) na sua colecção “Les Fermiers Généraux”. Impressa em Veneza, por Aldus Manutius, no ano de 1499, esta é uma obra que tem despertado um enorme fascínio ao longo dos séculos em áreas como as Artes, as Humanidades, a Ciência, e a Tecnologia. Apontado como exemplo paradigmático da prototipografia europeia da Renascença, este incunábulo é admiravelmente ilustrado pelas xilogravuras atribuídas a Benedetto Bordone. “Hypnerotomachia Poliphili” tornou-se um artefacto cultural de imenso valor na medida em que para além de conter o espírito da reflexão Renascentista sobre a Antiguidade Clássica, também delineia as traves mestras do movimento cultural que perpassa a História Ocidental nos séculos subsequentes.
A obra narra as aventuras de Poliphilo, que no interior de um sonho procura a sua amada, a ninfa Polia. No decurso desta demanda o nosso herói tem de atravessar florestas, cidades e labirintos. Durante esses périplos, Poliphilo, presencia as cenas mais inusitadas, cruzando-se com deuses, ninfas e outras entidades mitológicas. A sua componente gráfica é absolutamente incrível. Redigido em línguas tão diversas como o latim, grego, hebraico, árabe (bem como hieróglifos egípcios) o relato mescla ainda os pesadelos mais inusitados com o Erotismo. Pelo meio perpassam acutilantes comentários sobre temas como a Literatura, a Arquitectura e a Música.
A sua influência pode ser constatada desde o género intelectual soft thriller (um estilo praticado por Dan Brown e Umberto Eco, apenas para nomear alguns dos nomes mais conhecidos), como é o caso de “A Regra de Quatro” (2004) de Ian Caldwell e Dustin Thomason, até à Música, através dos nossos Bizarra Locomotiva cujo “Álbum Negro” (2009) alude às andanças de Poliphilo.

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“Hypnerotomachia Poliphili”, edição de 1956, Éditions du Cap.

Ao longo dos últimos quinze anos tenho-me cruzado por diversas vezes com esta obra ímpar. O encontro mais recente aconteceu no início deste mês. Uma visita à Feira do Livro do Porto acabou por conduzir-me à Biblioteca Municipal Almeida Garret, local onde se encontra patente a exposição “100 Tesouros da Biblioteca Pública do Porto”, curada por Fernando Pinto do Amaral. Enquanto passeava indolentemente pelo circuito expositivo, e após me ter cruzado com o ensaísta Eduardo Lourenço, eis que subitamente fui acometido pelo maior dos entusiasmos, ao deparar-me com a obra atribuída a Francesco Colonna. Dias depois, a 10 de Setembro, regressei a esta Biblioteca para assistir a mais uma edição da iniciativa “Um Objecto E Seus Discursos Por Semana”, que tomava exactamente por tema de reflexão o incunábulo “Hypnerotomachia Poliphili”. Nesse fim de tarde, e perante um auditório bem preenchido, o comissário da exposição, Fernando Pinto do Amaral, na companhia “de dois conhecidos especialistas nas histórias que este incunábulo tem para nos contar”, prometiam obsequiar a audiência com uma “conversa” a três. Infelizmente tal não se verificou. O actual Comissário do Plano Nacional de Leitura, autor da muito sorumbática obra “Na Órbita de Saturno” (Hiena Editora, 1992, livro que muito aprecio e ao qual regresso com alguma frequência), e Comissário da exposição “100 Tesouros da Biblioteca Pública do Porto”, negligenciou de forma quase deselegante o papel que lhes estava definido – o de moderador. Monopolizando o tempo disponível através de um discurso circular e autocentrado, Fernando Pinto do Amaral deixou muito pouco tempo para que os seus dois colegas apresentassem as suas respectivas ideias. Correndo contra o tempo, parece-me, José Bartólo, socorreu-se do jargão do Design para falar dos elementos tipográficos do objecto em estudo (leigo na sua área de especialização fiquei literalmente “a apanhá-las do ar”). O outro convidado, António Martins da Silva, neurologista e neurofisiologista, privilegia os estudos de função e disfunção cerebral (nomeadamente estudos de sono e epilepsia), esteve bem naquilo que disse (ainda que lhe tenha sido usurpado o “tempo de antena” onde, ao que parece, iria fazer uma introdução ao tema da obra. Limitando-se a referir alguns aspectos descurados por Fernando Pinto do Amaral, na sua essência bem interessantes, acabou por desapontar pelo facto de não ter incorrido nos territórios da sua especialidade para efectuar uma exegese da “Hypnerotomachia Poliphili”. Não sei se tal era suposto, ou até se tal abordagem é sequer possível. Mas eu teria gostado. Também teria apreciado que os três especialistas tivessem saído das suas áreas de conforto para discorrerem sobre os “discursos” do “objecto” na nossa contemporaneidade. Mas isso, eu sei, teria sido pedir demais.
A quem quiser conhecer a obra em questão, aconselho a tradução inglesa integral, publicada em 1999 (quinhentos anos depois da edição original) pelo musicólogo Joscelyn Godwin. Fica no entanto aqui o alerta para o facto de esta edição se apresentar em inglês corrente, negligenciado os jogos de palavras e a disposição gráfica original das mesmas. O leitor mais audaz poderá por seu turno afoitar-se na versão original da obra. Para o efeito, deixo AQUI a hiperligação para a digitalização efectuada pela Herzog August Bibliothek. As mentes apenas curiosas podem deleitar-se com uma viagem pelo livro, através do vídeo aqui incorporado.