ENTREMURALHAS 2016

Foi com uma directa em cima (situação algo inaudita, pois que a privação voluntária do sono não é algo que me faça particularmente feliz), que no passado dia 26 de Agosto cheguei à encantadora cidade do Lis. Nos meus ouvidos ainda zuniam as sonoridades geradas na noite anterior por Ben Frost, Cabaret Voltaire (aliás Richard H. Kirk), ambos com magníficas performances, e de Daniel Miller (o criador da Mute Records!?sim, esse mesmo!), que por sua vez brindou a audiência com um admirável DJ set no interior do Castelo de Montemor-o-Velho.
Mas hoje falar-vos-ei sobre um outro castelo, o de Leiria, o local onde se desenrolou a sétima edição do festival ENTREMURALHAS. Este evento anual – uma das melhores e mais completas iniciativas realizadas no nosso país – tem como apanágio uma criteriosa selecção relativamente ao leque de artistas que integram o seu cartaz. Este ano não foi excepção. Ao longo de três dias memoráveis os fãs das sonoridades góticas (e géneros musicais afins) deleitaram-se com as quinze bandas presentes. Ao contrário da edição anterior, este ano, infelizmente, não consegui assistir a todos os concertos, pelo que destacarei apenas os artistas que mais me preencheram, ou então aqueles que tive imensa pena de perder. Começarei por aqui mesmo – pelas Grausame Töchter. A fusão dos géneros EBM, Punk e Techno praticada por esta banda, aliada à estética BDSM, outorga-lhe a imagem de marca eminentemente teutónica. Como já referi, eu não vi o concerto, mas imagino uma espécie de Rammstein no feminino (quiçá inspiradas pela Nina Hagen) a cantarem em coro “Ich liebe meine Vagina”. Com base nos relatos de quem assistiu, a banda nem sequer aflorou os territórios adjacentes ao Grand Guignol, factor que ainda assim não lhes permitiu escapar a alguma celeuma por parte de mentes mais adversas à urofilia (ou urolagnia, que o vulgo designa por chuva dourada). Como é usual nas mentes censoras (ou simplesmente anti-gestaltistas) o todo é sempre menor que a soma das partes. Uma pena.

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A outra banda que não vi foram os Vive La Fête. O duo belga, formado por Danny Mommens (ex dEUS) e Els Pynoo (ex-modelo e actual vocalista) teve uma grande importância na minha vida há cerca de 12 anos. A toada electroclash do álbum “Nuit Blanch”, na época, assentava-me que nem uma luva (juro!). Que saudades dos hinos “Touche pas”, “Noir Désir” e “Maquillage”! Como em 2005 assisti ao concerto deles na cidade do Porto, desta vez, por cansaço excessivo, escusei-me a assistir àquele que terá sido indubitavelmente um concerto único.

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Mas nem tudo se perdeu, pois que ainda tive oportunidade de me deslumbrar com o concerto de King Dude. TJ Cowgill, em conjunto com August Johnson, Tosten Larson e Lee Newman, protagonizaram um verdadeiro Ofício de Trevas em toada Country Luciferina, um género folk profundamente encrustado na psique colectiva da América profunda (pelo menos assim o quero imaginar🙂
Em suma, TJ Cowgill oficiou, e orquestrou, uma bela missa negra para deleite dos neófitos presentes.

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Quase a finalizar, o destaque vai inteirinho para Sex Gang Children! Se há vinte anos atrás (época em que eu escutava compulsivamente o álbum “Medea”, disco de 1993), me tivessem dito que um dia eu iria assistir a um concerto desta banda mítica, a minha resposta teria sido algo como: “Sim, claro! Quando eu me tornar o Doctor Who”. Felizmente, ainda que o Doctor Who não exista na realidade, existem pessoas como o Carlos Matos (e demais equipa da FADE IN – Associação de Acção Cultural), que passam um ano inteiro a delinear minuciosamente aqueles três dias mágicos que encerram o mês de Agosto. Andi Sex Gang pertence a uma estirpe única de performers, na medida em que o seu dandismo casa de forma sublime com os seus dotes vocais. Assim, britânico até à medula, só encontro paralelo numa outra figura mítica, igualmente avassaladora – a inconfundível Val Denham. No concerto do passado dia 26, Andi Sex Gang, Kevin Matthews, Adrian Portas, e Matthew Saw, revisitaram de forma excelsa o legado desta banda única, cuja génese remonta ao  ano de 1981. Ars longa, vita brevis!

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Como 36 imagens valem mesmo muito mais do que todas as palavras deste texto, resta-me apenas agradecer ao André Henriques o ter-me fornecido as fotos que ilustram esta entrada. Como poderão comprovar pelos vossos próprios olhos, o André é mesmo um dos melhores fotógrafos actualmente activos neste país (e não, não estou a exagerar).
Uma última nota: para além de fotos das Grausame Töchter, dos Vive La Fête, do King Dude, e dos Sex Gang Children, reconhecerão certamente uma outra figura: sou eu mesmo, no duplo papel de compenetrado elemento da audiência, mas também enquanto prelector por via da comunicação CROWLEYMASS – Ressonâncias da “Grande Besta”, alocução efectuada no dia 27, nos Paços Novos do Castelo de Leiria.
Muito obrigado ao Carlos Matos por esta oportunidade! Muito obrigado ao André Henriques pelo seu talento imenso, ao qual alia um inestimável espírito de partilha! Muito obrigado ao Manuel Fernandes (da Bunker Store) pela camaradagem!