In Memoriam Einojuhani Rautavaara

“People ask me if I’m religious and I quote the German philosopher Friedrich Schleiermacher: ‘Religiosität ist Sinn und Geschmack der Unendliche’. Religion is a sense of, and taste for, the eternal. I have no religion, although officially I am Lutheran; I have only a sense of depth and mystery.”
Einojuhani Rautavaara

Einojuhani Rautavaara

Einojuhani Rautavaara (9 de Outubro de 1928 – 27 de Julho de 2016)

À hora do almoço o rádio da cozinha estava ligado. Escutei pela primeira vez na Antena 2 um nome que me é extremamente familiar – Einojuhani Rautavaara. A surpresa e a alegria depressa se desvaneceram quando me apercebi que o destaque dado ao compositor finlandês era consequência do seu falecimento, ocorrido ontem.
Rautavaara é conhecido pelo canto dos pássaros no seu “Cantus Arcticus” bem como pelas suas composições que evocam imagens de Anjos. No passagem do milénio efectuava a seguinte declaração: “From this alien reality, creatures rise up which could be called angels. They may bear some resemblance to the visions of William Blake, and are certainly related to Rainer Maria Rilke’s awe-inspiring figures of holy dread: ein jeder Engel ist schrecklich (every angel is terrible).” (Einojuhani Rautavaara 70: Music has a Will of Its Own’, Nordic Sounds, 1998/3 Vol. 17:18-21).
Muito provavelmente o desaparecimento do grande compositor nem sequer será noticiado pelas Televisões ou Jornais deste país. O que é uma pena enorme, na medida em que esta poderia ser uma oportunidade excelente para que mentes mais inquietas pudessem sentir o apelo em conhecer a obra de um dos maiores criadores na nossa contemporaneidade, cujo corpo de trabalho se encontra disperso por cinco décadas de actividade.
Rautavaara, juntamente com Benjamin Britten, Arvo Pärt, e Olivier Messiaen, é um gigante da Música Sacra. Apenas se distingue dos restantes pelo facto de ser muito mais intrigante e enigmático. A sua abordagem ao legado proporcionado pelo Cristianismo conjuga-se de forma nada inusitada com o Xamanismo (como tem sido apanágio de alguns criadores dos países bálticos, os quais na senda de Sibelius têm recorrido de forma sistemática a esse manancial de inspiração que é o poema épico “Kalevala”).
Quase a terminar permito-me incluir mais uma citação: “Naturally, the linking together of various (and to some people contradictory) systems must of necessity come to break the taboos of each system. But then I also believe that all artistic taboos are evidence of shortsightedness (in time and space) and often of racism.”
A finalizar deixo-vos aquela que é na minha humilde opinião a sua obra-prima, a qual toma por inspiração directa um dos episódios do já referido “Kalevala”: “Sammon ryöstö” (The Myth of Sampo), choral opera in 1 act for male choir, soloists and tape.
Desde que adquiri este disco, em 1999, nunca me cansei de o escutar. Durante os próximos tempos vou reouvi-lo ad nauseum.