RAPOON – Song From The End Of The World

“We have in fact only two certainties in this world – that we are not everything and that we will die.”

Georges Bataille

cover

Alguns autores ao estudarem a ANSIEDADE, particularmente nos casos da angústia mórbida bem como nos da angústia normal, entendem que a novidade aumenta a angústia. A repetição, por seu turno, apazigua-a. Melhor dizendo: enquanto o Tempo Cósmico pacifica, o Tempo Histórico, por outro lado, sempre virado para o Futuro, é anxiogénico. A circularidade e a repetição travam a tentação prospectiva (subentendendo-se por conseguinte que o Passado é um “lugar” de repouso, de cristalização). A volúpia da vertigem que caracteriza a hipermodernidade líquida faz do tempo Presente um momento de incerteza (não se julgue no entanto que esta sensação é apenas característica destes tempos agitados. Em abono da verdade todas as épocas o foram).
A tomada de consciência do processo Histórico encontra-se na origem da percepção de uma visão linear do Tempo, surgida com a tradição judaico-cristã. O Tempo linear consiste numa sucessão contínua de eventos singulares e irreversíveis. O seu movimento rectilíneo tem um começo e um fim. O Tempo, dotado de significado, desdobra-se numa série de momentos inalteráveis que rumam em direcção a um propósito final (télos). Por sua vez, a noção cíclica, concebida na Grécia Antiga, considera que o Tempo consiste num eterno retorno, sem começo nem fim. Na medida em que nenhum evento é absoluto, esta noção do Tempo assenta numa sequência permanente de ciclos que se repetem. O Tempo consiste num círculo inexorável – sem saída e sem fim. Tudo está condenado a girar eternamente na roda da História. Simplificando bastante as duas mundividências: enquanto a percepção de uma linearidade progressiva contempla o fim dos Tempos (um reinado apocalíptico que precede o fim do mundo), a teoria cíclica integra a noção de Palingénese, um renascer posterior ao cataclismo. Eis-nos, obviamente, perante construções/abstracções concebidas pela mente humana.
Agora imaginem um cenário típico da Ficção Científica (género X Files), em que um vírus adormecido há milhares de anos é o responsável pela hecatombe total em que a Humanidade inteira é simplesmente aniquilada. Um cenário em que NATUREZA vence a CULTURA. E se este cenário for real? Uma descoberta recente provou que o destino do nosso planeta pode vir a ser alterado de forma dramática. Uma equipa de investigadores franceses pretende reavivar um mega vírus adormecido há mais de 30 000 anos (o quarto vírus pré-histórico a ser descoberto desde 2003), encontrado recentemente no permafrost (pergelissolo em português) numa região do Árctico pertencente à Rússia. Importa ainda referir que os investigadores do Centro Nacional de Investigação Científica, liderados por Jean-Michel Claverie, publicaram um artigo no journal Proceedings of the National Academy of Sciences (e que pode ser consultado AQUI). Os cientistas não hesitam em lançar um aviso: as mudanças de temperatura que afectam o planeta podem ser responsáveis pelo acordar de vírus potencialmente perigosos. Nesse caso é melhor começar a “conhecer o inimigo”, justificam-se os cientistas. Eis-nos perante o epílogo da medicina ansiolítica.
Mediante o exposto os meus caros leitores perguntar-se-ão que é que isto tudo tem a ver com o disco mais recente de Robin Storey (aka Rapoon, ex-membro e co-fundador dos Zoviet France)? Tem tudo a ver na medida em que o artista foi beber inspiração directa ao tema anteriormente exposto para a concepção do seu álbum mais recente, “Song From The End Of The World”. Este disco, editado pela italiana Glacial Movements, à semelhança de “Time Frost”, em 2007, é prenhe de sonoridades glaciais. Não será de todo errado, creio, afirmar que é um registo de contornos isolacionistas (sem a “monstruosidade” de Lustmord, é certo), mas que ainda assim se encontra imbuído de uma matriz claustrofóbica, digna de um hipotético filme apocalíptico de Andrei Tarkovsky (e não é que ele não os tenha realizado. O seu último filme, “O Sacrifício” (1986), lida com o espectro de um conflito nuclear). “Song From The End Of The World”, apesar de bastante distante do meu predilecto “Fallen Gods (Cidar) ” não deixa de ser um disco imprescindível. Até porque em última instância, “Nature Conquers All”, não é!?