Antony! Love. Julian xx

Porque hoje é dia de Santo António de Lisboa (aquele santo que era mesmo santo),mas também porque hoje é dia de Santo António Variações de Amares (santo homem que nada tinha de santo, mas que faleceu no dia 13 de Junho de 1984), ocorreu-me que seria pertinente discorrer sobre um outro santo António. Refiro-me, certamente já o adivinhasteis, a Antony, o dos Johnsons.

Antony

Quis o destino que o acaso (perdoai-me o aparente paradoxo. Por favor, não vos esqueçais que este blogue faz a apologia da síntese mas também da divisão dos opostos), que no passado dia 6 de Maio viesse parar às minhas mãos um daqueles diários britânicos gratuitos. A publicação, para além de noticiar os temas do dia em terras de Sua Majestade, bem como as elevadas temperaturas que se iriam fazer sentir em Londres nesse fim-de-semana, anunciava o lançamento de um novo disco de Antony Hegarty, intitulado “Hopelessness”.

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Neste disco, o primeiro a solo enquanto Anohni (o moniker agora adoptado servirá sobretudo, assim o creio, no sentido de uma auto-afirmação relativamente aquele que o/a artista entende ser o seu verdadeiro género), assistimos a uma mudança de direcção radical relativamente à sonoridade anteriormente praticada. A chamber pop deu lugar a uma electrónica de contornos dançáveis, mudança que esta que na minha humilde opinião comporta o risco de daqui a dois anos devir em objecto artístico datado e obsoleto (não vos maçarei citando numerosos exemplos que poderiam consubstanciar a opinião aqui expressa). Em abono da verdade, o disco até se ouve. Sim, mas não mais que isso, pois que quanto ao conteúdo lírico o/a artista, cansado/a da Humanidade, decidiu votar a sua arte à salvação do planeta…É aqui que as coisas descambam. Lembram-se do Sting “fase floresta Amazónica” e dos U2 “qualquer coisa do género”? Esta é uma fase que serve para compensar a falta de inspiração (que por norma marca o fim de carreira) e justificar o culto a Avida Dollars (lembram-se do anagrama criado por André Breton que servou de alcunha a Salvador Dalí?). O artista, por norma, tem uma epifania e adquire uma Aura (na acepção benjaminiana do termo, ou seja, relacionada a algo glorificante ainda que sob a forma de uma proximidade longínqua. Melhor dizendo o objecto AURÁTICO torna-se inacessível, inatingível, quimérico).
Longe vão os tempos em que Hegarty apresentava uma outra espécie de aura (tipo daquelas que inundam os bodhisattvas, “seres de luz”, da tradição budista Mahayana. Lembrem-se que Lou Reed referia-se a Hegarty como sendo um anjo). Recordam-se também do seu primeiro disco, simplesmente intitulado “ Antony and the Johnsons”? Foi editado em 2000 pela Durtro, a convite de David Tibet (Current 93). Lembro-me perfeitamente do assombro provocado por este disco junto dos fãs de sonoridades mais sombrias. Nos inícios da década passada, esta verdadeira “ave rara”, na acepção positiva do termo, era distribuída pela World Serpent. O catálogo da distribuidora contava com nomes como Chris & Cosey, Coil, Charlemagne Palestine, mas também incluía bandas “menos politicamente correctas” como Death in June ou Der Blutarsch. Anthony a todos agradou. Agora pergunto-me se seria pelo facto de ter uma música intitulada “Hitler in My Heart”🙂 !?

Antony_and_the_Johnsons_(Front_Cover)

Deste período áureo (pelo menos para mim enquanto melómano), recordo-me de ter assistido ao concerto de C93 + Antony em Lisboa, no dia 8 de Fevereiro de 2003. No ano seguinte, a 8 de Novembro, encontrei-o no Passos Manuel, no Porto. Na minha memória ficou registado o olhar surpreendido da maior parte da audiência quando o fui cumprimentar como se de uma velha amizade se tratasse🙂
Pois bem, tenho saudades de Antony. Aquele que deixava os drones, o Grande Irmão e até os “bichinhos” em paz. Tenho saudades de temas como “I Fell in Love with a Dead Boy”, ou “You Are My Sister”. Antony, volta para nós!

Anohni actuará no próximo dia 21 de Junho (dia de solstício) no Coliseu do Porto. Só me resta mesmo dizer “so close but so far away…”