Veado, Cornudo, ou Actéon?

Veado (do latim venatu, “caça morta”) em zoologia é a designação geral das espécies de mamíferos da família Cervidae.

George Platt Lynes, Acteon, 1937

George Platt Lynes, Acteon, 1937

“A parte do filme que mais suscita interrogações é a que envolve o protagonista masculino, que acorda numa cama de um ho(s)tel, sitiado entre uma cabeça de alce e uma mulher…”. Esta é a sinopse que dá mote ao texto “O Porto autêntico não é isto, senhores!”, de Mário Barros, publicado no suplemento P3 do jornal Público ao qual podem aceder AQUI.
O texto em questão reflecte a opinião do seu autor sobre um filme promocional da cidade do Porto enquanto “cidade cosmopolita e autêntica”. O filme, resultado de uma encomenda da Câmara Municipal do Porto, foi recentemente apresentado em Viena durante a cerimónia de entrega dos ED Awards (organização que anualmente elege os melhores do design na Europa).
Ao acedermos à hiperligação do jornal onde se encontra alojado o texto somos informados que o vídeo em questão foi posteriormente eliminado pela Câmara do Porto da sua conta de Facebook e também do YouTube. O texto data do dia 27 de Maio, o mesmo dia em que tive a oportunidade de visionar o objecto da celeuma.
Aquilo que mais me intrigou no vídeo não foi constatar a pobreza dos seus conteúdos (como, por exemplo, a ausência de qualquer referência ao domínio Cultural), mas sim, à semelhança de Mário Barros, o facto de o autor do filme (uso aqui o masculino, pois recordo-me que o mesmo se encontrava creditado a um cavalheiro) ter colocado na cama uma cabeça de alce (mas que também pode ser de um veado), de cor azul. As hipóteses por mim aventadas para justificar a sua inclusão por parte de realizador foram três:
1). Veicular uma mensagem de Cripto-homofobia [o Urban Dictionary fornece-nos a seguinte definição: “The Brazilian Portuguese for somenone who is homossexual is often used as standard diss for anything. (for example, like the word fucker in English). Vai toma no cú viado!! (Fuck you, homosexual!! (in this case, Gaylord, or Gayass)].
2). Convocar a figura do Cornudo (não confundir com o termo Chifrudo, pois não me parece que o realizador em causa reverencie Satã). [Utilizo a fonte referenciada anteriormente: “One who let’s his wife lay with other men without objection (Italian) One who allows the “horns” be put to him (Italian). Same as “cabron” (Spanish).Hey CORNUDO, How’s your wife? Avoid using this insult – it’s a bad one. You will get a violent response from all but the biggest cowards! ].
3). Que o realizador em causa é um cripto-erudito, e como tal ter-se-á baseado no mito de Actéon metamorfoseado em veado, após ter contemplado Diana no Banho. Hipótese pouco provável, mas nada nos garante que o autor do filme não esteja familiarizado com o trabalho de Pierre Klossovski (pictórico e literário).
Descarto, obviamente, a última hipótese. Não hesito, no entanto, em considerar a validade das duas primeiras, aliadas a um “certain regarde” da Mulher enquanto objecto passivo do desejo masculino. Estaria por acaso  o autor possuído pelo espírito da Male Gaze (na acepção cunhada pela crítica feminista de Cinema, Laura Mulvey)? Talvez sim, talvez não. Nunca o saberemos. Sabemos apenas que o dito autor poderia ter feito o seu trabalho de casa, de maneira a não cometer um erro de palmatória. Bastava ter estado atento nas aulas de Introdução à Teoria Da Imagem, para saber da existência de um autor chamado John Berger (encontra-se editado entre nós pela Edições 70, e tudo). Em 1972 (ah, pois é!), este autor Britânico realizou um documentário em quatro partes, intitulado “Ways of Seeing”. O segundo episódio desta série lida com a temática do Nu feminino enquanto componente muito importante da Arte Europeia. Berger analisa uma série de pinturas, questionando-se/nos se as mesmas representam as mulheres como efectivamente são, ou como os homens gostariam que elas fossem. Ter feito o trabalho de casa direitinho teria certamente evitado que o vídeo fosse retirado da Internet. Caso o autor um dia venha a ler este texto, poderá vir a tirar bastante proveito do visionamento deste segundo episódio, cuja hiperligação se encontra AQUI.
Resumindo e concluindo: o autor do filme até pode ter direito à sua Male Gaze… no entanto, não o pode ter quando responde a uma encomenda  pública, que na sua essência deve ser o mais plural possível. Quanto a quem encomendou/supervisionou a “obra”, também deveria levar em linha de consideração que enquanto a Utopia é reactiva, a Ideologia, por seu turno, porta sempre consigo um efeito de aderência. A mesma que legitima os “artistas do regime” como Joana Vasconcelos e Pedro Abrunhosa. Como dizia a Susan Sontag num ensaio datado de 1965, “…vivemos tempos de banalidade incessante”.

Diana and Acteon by Lucas Cranach the Elder

Diana and Acteon por Lucas Cranach, o Velho