O Círculo. # 2

A maior parte das pessoas com algum interesse nas minhas actividades terão certamente conhecimento da reactivação d’O Círculo. – o boletim informativo e cultural do Círculo Católico de Operários do Porto. Esta aventura editorial, iniciada em Janeiro deste ano, conta com um fantástico naipe de colaboradores internos (bem como alguns externos à própria instituição), a quem endosso a minha profunda gratidão pelo empenho manifestado.
O Círculo. NOVA SÉRIE. Nº2. ABRIL, MAIO e JUNHO, pode ser adquirido na Secretaria e/ou no Bar do CCOP.
Para já deixo-vos com a nota editorial deste número dois. A fotografia que ilustra esta entrada é da Maria Louceiro.

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“Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, esta se dispersa e se recolhe, vem e vai.”

Heraclito de Éfeso

 

Heraclito, filósofo pré-socrático, considera que tudo consiste num imenso fluxo perene e que nada permanece a mesma coisa, pois tudo se transforma num processo de ininterrupta mutação. Desta maneira, Heraclito reconhece a forma do Ser no Devir pelo qual todas as coisas se sujeitam ao Tempo e à transformação que este impõe. Apenas a Mudança e o Movimento são reais, a identidade das coisas iguais a si mesmas é meramente ilusória: tudo flui (panta rei). Esta expressão é uma consequência de polemos (a guerra, o conflito), que reina sobre tudo. Por conseguinte, o sistema de pensamento de Heraclito pode ser sistematizado na seguinte premissa: “tudo flui enquanto resultado da tensão contínua dos opostos em luta”.
Enquanto redigia o parágrafo anterior, a minha mente teimava em evocar a memóriamuito recentedo duplo atentado-suicida que devastou o local das partidas do aeroporto Bruxelas-Zaventem, no passado dia 22 de Março. Efectivamente, vários episódios ocorridos ao longo dos últimos tempos parecem comprovar a validade da teoria do choque de civilizações formulada pelo economista norte-americano Samuel P. Huntington (18 de Abril de 1927 — 24 de Dezembro de 2008). De acordo com este pensador, as principais fontes de conflito da actualidade não seriam de base económica ou ideológica. As grandes divisões entre a Humanidade bem como as principais fontes de conflito serão culturais. O choque de civilizações dominará o cenário político global, afirmava Huntington.
Que vivemos em tempos de grande incerteza, parece-me um facto incontestável. Viajar deixou de ser uma acção potenciadora de um possível (re) encontro com o Outro. O olhar curioso, provocado pelo exotismo (gradualmente atenuado ao longo das últimas décadas pelo nivelar proporcionado pela Globalização), deu lugar ao mirar da suspeição e da desconfiança. Da delação gratuita e da procura de bodes expiatórios fáceis vai apenas um pequeno passo até à hecatombe total. A História comprova-o, convém não o esquecermos.
Mercê do seu estatuto de nação periférica (a nível geográfico e político), Portugal, ainda assim, tem assistido de maneira incólume ao derramar do sangue que vem acontecendo em solo europeu. A vida por cá decorre ao seu ritmo normal, sendo apenas sobressaltada pelo clamor da arena desportiva que alimenta os ecos da semana portuguesa. Os turistas continuam a visitar-nos, na ânsia tenaz de um eventual deslumbramento proporcionado por um sol que apenas tarda pela demora. Ainda que a companhia aérea nacional teime em permanecer uma verdadeira caixa-negra, pelo menos aos olhos do vulgo, os forasteiros, no entanto, não deixam de nos visitar. Nos últimos três meses também passaram pela nossa associação algumas pessoas de outras nacionalidades que não a nossa. Em colaboração com criadores do Porto, artistas alemães e norte-americanos (a dupla de videastas Graw Böckler e o compositor Bob Bellerue, respectivamente), honraram-nos com a sua presença no nosso Salão de Festas, contribuindo desta forma para reforçar o papel do CCOP no epicentro da vida cultural da nossa cidade. Outros se seguirão, já no próximo mês de Maio, através da realização de um festival de cinema e música de cariz internacional.
Tudo flui, como fiz questão de enfatizar no início desta nota editorial. Daí a importância em mapear o nosso quotidiano associativo em três dimensões temporais distintas: aquilo que foi, aquilo que é e aquilo que será. Foram imensas as actividades desenvolvidas ao longo dos últimos três meses, através de um conjunto de iniciativas protagonizadas pelas nossas várias Secções: Grupo Coral, Grupo de Fados, Grupo Dramático 9 de Junho e Ténis de Mesa, respectivamente. Incansáveis foram também os nossos aliados mais directos, nomeadamente a CONFEDERAÇÃO – Colectivo de Investigação Teatral (companhia residente), a Rua do Sol 172 (colectivo artístico) Projecto Catapulta, e o Jogo do Pau. Do seu labor passado, presente e futuro, damos nota nas páginas desta edição.
Ao fechar esta nota editorial, aproveito para dirigir os meus sinceros agradecimentos a todos os elementos da redacção, reconhecimento extensível, obviamente, a todos os colaboradores, internos e externos, que contribuíram para a produção dos conteúdos deste número 2.
Marcamos novo encontro para o próximo mês de Junho, aqui, nas páginas de “O Círculo”. Votos de boas leituras e até lá!

Júlio Mendes Rodrigo
Chefe de Redacção