Comunismo Integral

«Termes utriusque Indiae, calamitas summa».

LINEU

 

William Saville-Kent next to a termite nest mound

William Saville-Kent next to a termite nest mound.

Diz-nos Maurício Maeterlinck, na sua “A Vida da Térmitas, que a Natureza não é avara em monstruosidades. Os entomologistas têm-nos legado inclusive esboços esquemáticos tão alucinantes como os pesadelos de Odillon Redon, ou as visões interplanetárias de William Blake, retratando uma casta de monstros evadidos dum pesadelo que lembram as mais fantásticas diabruras de Jerónimo Bosch, de Breughel-o-velho e de Callot.
A vida na comunidade das térmitas é regida sob força de lei mais dura que a de Esparta, consistindo numa existência avarenta, sórdida e monótona. Eis um trecho d’A Vida das Térmitas.

«Quando uma térmita, de qualquer classe a que pertença, tem fome, dá uma pancada de antena ao operário que passa. Imediatamente êste fornece ao solicitador de tenra idade que é susceptível de vir a ser rei, raínha ou insecto alado, o que leva no estômago. Se o reclamante é adulto volta-se em sentido inverso e cede-lhe generosamente o que o seu intestino contém.
Vê-se, é o comunismo integral, o comunismo do esófago e das entranhas, levado até à coprofagia celectiva. Nada se perde na sinistra e próspera república em que se realiza, sob o ponto de vista económico, o sórdido ideal que a natureza nos parece propor. Se alguém muda de pele, o espólio é imediatamente devorado; se alguém morre – o operário, rei, raínha ou guerreiro – o cadáver é no momento consumido pelos sobreviventes. Nenhuma perda, a limpeza, é automática e sempre proveitosa, tudo é bom, arrasta-se tudo, tudo é comestível, tudo é celulose e os excrementos são re-utilizados quási indefinidamente. O excremento é de resto a matéria prima, se assim pode dizer-se, de tôdas as suas indústrias, entre as quais, como acabamos de ver, as da alimentação».

MAETERLINCK, Maurício. A Vida das Térmitas: Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1943.

Da série “Mitologia da Natureza”, DEV©MMXVI.