Visão e Presságio

«Eram as horas das trevas profundas. Trespassava-me a medula dos ossos o vento frio da noite, e parecia-me que os membros hirtos se me haviam pregado no topo da penedia. Olhava fito ante mim, e os meus olhos rompiam a escuridão do horizonte, como se a luz do sol o iluminasse. O espectáculo maravilhoso que se passava nesse espaço insondável fazia-me eriçar os cabelos que o Norte me açoitava com o sopro gelado. Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois de estar ali alguns não sei se instantes ou séculos: o mar começou a agitar-se e rugir, semelhante ao metal fervente destinado para feitura de estátua colossal que resfriasse de súbito em vasta caldeira. O sibilar das rajadas também cessou completamente. Parado sobre a face da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recolheram a gleba que o cobre. Muito ao longe uma vermelhidão tenuíssima foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo horizonte e repintando a abóboda imensa dos céus. Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas, alvacentas das plagas marinhas tinham-se abatido e livelado, como os cerros uniformes de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros dias do estio, vão despenhando-se, formar um lago chão e morto na caldeira mais funda do vale fechado. Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, afogueado, como a atmosfera que pesava em cima dele: e além jazia o cadáver do mar.
Eu, o Silêncio e a Solidão erámos quem estava aí».

ALEXANDRE HERCULANO, Eurico, o Presbítero.

Visão e presságio do presbítero: aproxima-se a agonia da Espanha cristã. Os Mouros vão atravessar o mar Mediterrâneo, e os seus exércitos vão esmagar as tropas visigóticas.

Da série “Choque de Civilizações”, DEV©MMXVI.

Le_Tintoret_-_Saint_Marc_sauvant_un_Sarrasin

TINTORETTO, “São Marcos Salvando o Sarraceno do Naufrágio” (1562-1566).