Adversus Babylonia: HHY & The Macumbas no Rivoli

“Tudo o que foi enviado para as praias de luz, de novo será recolhido pelos espaços celestes…; mesmo a grande muralha que circunda o mundo se há-de abater, extenuada pelo tempo, e tornar-se-á numa ruína em putrefacção.”

 – Lucrécio, De rerum natura [vv.235.350]

HHY & The Macumbas no Rivoli

Numa perspectiva muito pessoal considero que existem apenas três tipos distintos de criadores musicais dignos dessa designação, a saber: aqueles que encetam uma viagem pela negra noite da alma humana, e que se regem pelo carpir, pelo exorcizar das emoções [Swans]; os que padecem de inquietude existencial, e a quem a taxonomia anterior não satisfaz [Julian Cope]; aqueles que cruzam ambas as categorizações anteriormente enunciadas acrescentando-lhe uma outra – o umbral da dor. Esta terminologia, cunhada por William James, como é do conhecimento geral, constitui uma das variedades da experiência religiosa. Nesta dimensão incluo simultaneamente os britânicos Coil e os portuenses HHY & The Macumbas.
Quem os viu ontem à noite, no Rivoli, não ficou certamente incólume à pantomina de espíritos por eles convocada. Uma performance deste ensemble portuense constitui sempre um momento catártico, um instante de (re)ligação.
A imagem que ilustra esta entrada é uma fotografia do concerto da noite de ontem. Foi tirada por mim. É, literalmente, o “fantasma na máquina”. Gosto de pensar que a mesma teve o toque trickster de Papa Legba. Talvez que esta imagem seja apenas uma mera metáfora visual da “caixa negra” cibernética, onde se efectuam os protocolos comunicacionais do mysterium tremendum et fascinans, o qual é, como sois sabedores, território do numinoso e do sagrado. O Sublime exige uma parte de obscuro, de terrível, para poder atingir a imaginação. Ontem foi noite de Lua Cheia. Uma noite normal de Sábado. Ainda assim o Sublime aconteceu. E a ***a da Babilónia, ali, tão próxima…