O Arranca Corações # 172 “In Memoriam David Bowie”

«Para a pessoa humana o que significa a morte? O problema é inesgotável: é o próprio mistério do Homem abordado sob determinada perspectiva. Cada verdadeiro problema da filosofia contém os outros todos na unidade do mistério.
Temos, pois, de nos impor limites e procurar uma base de experiência para possíveis respostas; e somos sempre obrigados a deixar de lado problemas de extrema importância. No estado actual da filosofia, a nossa busca parece inevitável. Tão longe ficamos de uma verdadeira metafísica da morte como da vida.»

Paul-Louis Landsberg in “Ensaio Sobre a Experiência da Morte”, Hiena, Lisboa, Maio de 1994.

_Blackstar__video_3546076b

Fotograma do vídeo “Blackstar”

Na madrugada de Sábado para Domingo, dia 17 de Janeiro, da 01:00h às 02:00h da manhã, vai para o ar mais uma emissão d’O Arranca Corações.

MORREU DAVID BOWIE. PONTO FINAL PARÁGRAFO.
O seu último vídeo, “Lazarus”, que é também o single do álbum “Black Star” – lançado no dia do seu aniversário (dois dias antes da sua morte) -, abre com a seguinte frase: “Look up here, I’m in Heaven!”. Quem fizer uma análise atenta às letras do tema perceberá, evidentemente, que o mesmo consiste numa espécie de epitáfio, que é, também, simultaneamente, uma pungente mensagem de despedida.

1 In Memoriam David Bowie

Fotograma do vídeo “Lazarus”, em que assistimos à saída de cena de David Bowie

Na sua obra “O Nascimento da Arte”, Georges Bataille identifica os dois motores do acto criativo: os interditos Morte e Desejo, respectivamente. Ambos estão na origem das primeiras acções para além do modo da mera auto preservação, posteriores ao Ritual, ao Sacrifício, bem como à criação de cosmologias cimentadas na trilogia Medo-Culpa-Castigo, antecedendo o entendimento de uma orientação temporal específica, premissa basilar da percepção do processo histórico. A angústia sentida perante a ideia da Morte timor mortis conturbate me – está na origem da Transgressão, levando a que a Humanidade se comece a expressar através da Arte. De acordo com a acepção explanada anteriormente depreende-se que a “Morte é a mãe da Beleza”, tal como um dia asseverou o colectivo artístico AutopsiA. O produtor de “Black Star”, Tony Visconti, por sua vez, afirmou por estes dias o seguinte: “A sua morte [David Bowie] não diferiu da sua vida – uma obra de arte”. Escasseiam nomes sobre quem se possa dizer o mesmo! Assim de memória, recordo-me apenas de algumas figuras cuja própria morte foi uma obra de arte: o escritor Yukio Mishima (cuja visão do Vazio foi devidamente enaltecida por Marguerite Yourcenar), o intelectual Pier Paolo Pasolini (cujos primeiros cinco minutos após uma morte violenta foram convenientemente cantados pelos Coil), o vereador do pelouro da Cultura Paulo Cunha e Silva (através do respeitoso gesto protagonizado pela Câmara Municipal do Porto, ao transformar em mausoléu provisório o Teatro Municipal Rivoli, aquando da exibição dos seus restos mortais (velório). Efectivamente, se poucos são aqueles que ousam enfrentar a morte com a mesma audácia como a que foi manifestada por David Bowie (neste seu último trabalho) menos ainda são os sobreviventes que ousam fazer da morte um acto poético. O interdito da morte tornou-se numa obscenidade voyeurista (recordo-me do actor António Feio, doente terminal, a posar para uma revista social. Prática selvática das revistas ditas cor-de-rosa que me enche de repulsa). Deixou de existir lugar para a ars moriendi, ou para a mera contemplação estética da Morte: cujo epítome, na minha opinião, se encontra numa obra concebida em 1964 pelo holandês Maurits Cornelis Escher – “The Eye Skull”.

escher the eye skull

“The Eye Skull” por M.C. Escher

Bowie ousou transgredir. Foi soberano. Sempre. Agora está livre, tal como aquele “pássaro azul”, cantado em “Lazarus”. O David Bowie está morto. Viva o David Bowie!
Dito tudo isto, importa, pois, referir, que esta emissão d’O Arranca Corações será dedicada totalmente ao artista britânico. Não é um tributo, pois que esse tipo de homenagem (já aqui vos disse), apenas deve ser prestado aos deuses. É antes um gesto de respeito para com a obra desta figura ímpar. Como sempre o Arranca Corações decorrerá em bom português. Para esta homenagem escolhi uma obra composta em 1816. Refiro-me ao “Requiem” do compositor José Maurício Nunes Garcia, numa interpretação da Orquestra Sinfónica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Neste In Memoriam, socorrer-me-ei ainda da figura tutelar que é Antonin Artaud, revisitando para o efeito o seu texto “A Arte e a Morte”.
Os meus caros ouvintes podem acompanhar a transmissão  do programa através  das seguintes frequências de transmissão da  NFM, ou então, se assim o preferirem, através da emissão online.

frequc3aancias-nfm

A Rádio NFM faz bater mais forte o coração da música independente!