Obituário – René Girard e João Marques

“Les mythes débutent presque toujours par un état de désordre extrême.”

― René Girard, “I See Satan Fall Like Lightning”

Albrecht Dürer, Cain kills Abel

Albrecht Dürer, “Cain kills Abel”

No decurso de 2015 ocorreram dois óbitos que me tocaram de forma particular. Começarei por destacar o mais recente, ocorrido no passado dia 04 de Novembro. Refiro-me à morte de René Girard, historiador, crítico literário e filósofo francês, que completaria hoje 92 anos.
Girard ensinou em diversas instituições universitárias norte-americanas como a Duke University, o Bryn Mawr College, a Johns Hopkins University, a State University of New York at Buffalo, bem como na Stanford University. Autor de uma vasta obra, amplamente traduzida, destacam-se alguns livros que já se tornaram clássicos, entre eles: “Mensonge romantique et verité romanesque” (1961), “La violence et le sacrée” (1972) e “Des choses cachées depuis la fondation du monde” (1978).
O pensamento de René Girard contibuiu para o desenvolvimento dos estudos em torno das mecânicas do Desejo, permitindo uma renovação profunda naquilo que ao conhecimento da Humanidade concerne, mormente através da sua teoria da Rivalidade Mimética. Na edição do semanário “O Diabo”, do passado dia 15 de Dezembro, encontra-se inclusa uma entrevista realizada por Dominique Jamet a um outro intelectual francês, Alain de Benoist. Segundo este autor, “ao reduzir o desejo à inveja, René Girard sistematiza”. Pela minha parte apenas posso destacar a enorme importância que os escritos de Girard tiveram (e têm) nas minhas investigações em torno das relações entre o Sagrado e a Violência, reconhecendo uma grande dívida para com o autor aquando da redacção da dramaturgia da peça “Sancta Viscera Tua”, em parceria com o compositor Jonathan Uliel Saldanha.
Para quem quiser aprofundar (ou tomar contacto pela primeira vez) com o pensamento deste autor, membro da Academia Francesa desde 2005 até à sua morte, não consigo deixar de sugerir a leitura de “Les Origines de La Culture”, uma obra editada em 2004 pela Desclée de Brouwer, e que consiste numa série de entrevistas conduzidas por Pierpaolo Antonello (Professor da Universidade de Cambridge) e João Cezar de Castro Rocha (Professor da Universidade do Rio de Janeiro).

ÓbitosO outro desaparecimento que aqui me cumpre dar nota, e que me tocou de maneira pessoal, foi o de João Francisco Marques, nascido em 1929 e falecido no passado dia 06 de Março. João Marques era catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde foi titular da cadeira de Teoria da História. A área das suas investigações situava-se no campo da Oratória Sagrada, da Piedade Popular, da Cultura e Mentalidade Religiosa da Época Moderna – temas sobre os quais publicou numerosos estudos.
Membro da Academia Portuguesa da História, dos Centros de História Religiosa da U.C.P., de História da Espiritualidade e de História Moderna da FLUP, foi autor de mais de uma centena de estudos publicados em revistas e colectâneas da especialidade. Foi ainda assessor histórico de alguns filmes (como “Non ou a vã glória de Mandar”, “A Divina Comédia”, “O Gebo e a sombra”, ou “Palavra e Utopia”, entre outros) do realizador Manoel de Oliveira, de quem era amigo íntimo. O erudito sacerdote e historiador precedeu o ilustre realizador na viagem para o reino tutelado por Hades, falecendo cerca de um mês antes de Oliveira.
João Marques frequentou nos finais da década de 1970, em Paris, as aulas dos maiores vultos da historiografia contemporânea, destacando-se a figura tutelar de Jean Delumeu (o seu Mestre, como o próprio me confidenciou um dia), catedrático de História das Mentalidades Religiosas, de 1975 a 1994, no Collège de France.
Quis o destino que eu tivesse a oportunidade de ter sido seu aluno. Conheci o Prof. João Marques no ano lectivo de 1996 – 1997, no âmbito da minha licenciatura em História, na FLUP. Devo dizer que, a par das aulas do Prof. Doutor Luís Miguel Duarte, as lições do Prof. João Marques constituíram o único estímulo intelectual, nesses anos de aborrecimento mortal (creio que isto diz muito do restante corpo docente daquela instituição, nos anos de 1992 a 1997). Com o professor Marques, inebriei-me de forma apaixonada pela Filosofia da História, sorvendo os seus ensinamentos sobre Spengler, Vico e Toynbee. As suas aulas realizavam-se, se não me falha a memória, às segundas de manhã, num dos anfiteatros. Como o próprio fez questão de frisar publicamente um dia, “O Júlio nunca faltou a uma sessão”. A cadeira que tutelava, Teoria de História, era o ”terror” de muitos aspirantes a professores, que ficavam retidos no quarto ano, impossibilitados de fazer o seu estágio profissional. Nunca esquecerei aquilo que um dia me segredou baixinho, relativamente à minha nota na primeira e única frequência à sua cadeira: “C’um diabo, Júlio, és o meu melhor aluno e só tiveste 7 valores?!”. Na véspera dessa frequência, eu tinha estado a ouvir ininterruptamente o “Brick by Brick” do Iggy Pop, esquecendo-me de estudar para a mesma. Impossibilitando de fazer a frequência seguinte, fui a exame final. Demorei cerca de três horas a fazê-lo. Umas semanas depois, ao entrar na instituição universitária, fui surpreendido com as felicitações de vários colegas. Eu tinha tido a melhor nota de sempre à cadeira de Teoria de História. O meu momento de maior orgulho, nesses anos de enfado!
Foi uma honra enorme ter sido seu aluno, Sr. Professor Doutor João Marques!