Libido Sentiendi

“La mélancolie n’est que de la ferveur retombée. ”
―  André Gide, “Les Nourritures Terrestres “, éd. Gallimard, p. 23

A mitologia pessoal que criei em torno da Natureza, contempla dois momentos distintos: o Tempo dos Grilos e o Tempo dos Dióspiros. O primeiro em Abril / Maio e o segundo em Outubro / Novembro. Estes são instantes repletos de uma enorme carga simbólica, e nos quais eu me permito experienciar algo próximo daquilo a que os orientais designam como “Satori”, ou seja, a visão clara da natureza última da Existência.
O diospireiro, árvore pertencente ao meu imaginário pessoal desde a mais tenra infância, sempre exerceu um enorme fascínio sobre mim. Inexplicavelmente, sempre considerei que esta árvore se encontra intimamente relacionada com alguma ignota versão castreja de Gwyn ap Nudd, o soberano do Orbis alius, topos ligado às cosmologias indo-europeias. Existe, no entanto, uma outra dimensão simbólica que atribuo ao fruto desta árvore. Sensorial. Ligada ao Império das Sensações. Segundo consegui apurar, Santo Agostinho foi o primeiro a distinguir três tipos de Desejo: a libido sciendi, o desejo de Conhecimento, a libido sentiendi, o desejo Sensual em sentido mais amplo, e a libido dominendi, o desejo de Domínio. Eu incluo o dióspiro na segunda categoria, na medida em que o seu saborear me remete para uma nostalgia da infância.

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A fotografia que ilustra esta entrada, da autoria da Ana Carvalho, foi tirada no passado dia 09 de Novembro, em casa da minha mãe, localizada nas terras graníticas do Vale do Sousa. O diospireiro, como sois sabedores, foi uma das poucas árvores que sobreviveram em 1945 ao lançamento pelos Estados Unidos de uma bomba atómica sobre Nagasaki, Japão. É uma árvore que simboliza também a perenidade.
A semana que passou foi especialmente conturbada. Principalmente na Velha Europa. Na sequência dos acontecimentos mais recentes, intrínsecos às dinâmicas profanas do processo Histórico, antevejo algumas mudanças no mapa político mundial. Talvez que nos próximos tempos, as fronteiras sejam revistas. Talvez se verifiquem até mais atentados terroristas nas capitais europeias. Talvez a hegemonia ocidental se aproxime do seu ocaso, mercê da mediocridade e da falta de escrúpulos dos seus líderes. Talvez…
No entanto, uma coisa é certa: nos próximo anos, e nos vindouros, num lugarzinho do Vale do Sousa, o Tempo, esse Grande Escultor, continuará a ser regido pelo Duunvirato Grilos / Dióspiros.