O Grande Jogo da Vida e da Morte

Há quinze anos atrás, quando eu desempenhava funções profissionais como gestor de livraria, passou-me pelas mãos um livro intitulado “Car Crashes & Other Sad Stories”, creditado a Mell Kilpatrick, numa edição da Taschen.
Kilpatrick foi um fotógrafo californiano e a sua actividade profissional na área da Fotografia desenvolveu-se no decurso das décadas de 1940 e 1950. A sua objectiva captou de forma horrivelmente bela uma miríade de cenas de crime, bem como imensos desastres de automóvel. À época, a impressão causada por este livro levou a que eu o adquirisse imediatamente. Volvidos quinze anos, absorto numa afincada leitura das obras do belga Maurice Maeterlinck, deparei-me com uma das mais belas descrições que já li sobre aqueles “segundos eternos” que antecedem o preciso instante em que ocorre uma morte violenta.

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A transcrição que se segue foi retirada do livro “A Inteligência das Flôres”, de Maurice MAETERLINCK, trad. Port. por Candido dos Reis (1916).

“Eis-nos de partida, ao romper de um belo dia, em automóvel, em bicicleta, ou em barco, – pouco importa isso ao acontecimento que se prepara; mas para acentuar melhor as imagens, tomemos de preferência o automóvel ou a motocicleta, que são maravilhosos instrumentos de contratempo e que interpelam audazmente a Fortuna sôbre o grande jogo da vida e da morte. De repente, sem motivos, na curva do caminho, no meio da longa e larga estrada, no princípio de uma descida, aquém ou além, á direita ou á esquerda, dominando o freio, a roda, a direcção, obstruindo subitamente todo o espaço sob a aparência enganadora de uma árvore, de um muro, de um penedo, de um obstáculo qualquer, eis a face a face, surgindo imprevista, enorme, imediata, indubitável, inevitável, irrevogável, a Morte, que cerra o horizonte com uma travanca, deixando-a sem saída…
Começa imediatamente, entre a nossa inteligência e o nosso instinto, uma apaixonada scena de meio segundo. A atitude da inteligência, da razão, da consciência, como quisermos dizer, é extremamente interessante. Instantaneamente, claramente, logicamente, entende que tudo está perdido, sem recurso. E, todavia, não se desvaira nem se assusta. Avalia com exactidão a catástrofe, os seus pormenóres e as suas consequências, reconhece, com satisfação, que não tem mêdo, e conserva a sua lucidez. Demais, entre a quéda e o choque, tem tempo, encontra-se, distrái-se, acha meio de pensar em qualquer coisa, de evocar recordações, de fazer comparações, observações minúsculas e exactas. A árvore, que se vê através da morte, é um plátano, tem três buracos de casca matizada…não é tão belo como o jardim…, o penedo, contra o qual o crânio se esmagará, tem veios de mica e de mármore muito branco…Ele conhece que não é responsável, que não tem de se censurar; está quase sorridente, goza não sei de que volúpia ambígua, e espera o inevitável com uma resignação suava, com que se mistura uma curiosidade prodigiosa.”