“Carpir o dia”

“The Greek myth of Narcissus is directly concerned with a fact of human experience, as the word Narcissus indicates. It is from the Greek word narcosis or numbness. The youth Narcissus mistook his own reflection in the water for another person. This extension of himself by mirror numbed his perceptions until he became the servomechanism of his own extended or repeated image. The nymph Echo tried to win his love with fragments of his own speech, but in vain. He was numb. He had adapted to his extension of himself and had become a closed system.
Now the point of this myth is the fact that men at once become fascinated by any extension of themselves in any material other than themselves….”

Marshall McLuhan, “The Gadget Lover, Narcissus as Narcosis”, Chapter 4, “Understanding Media: The Extensions of Man” (1964), p.41, MIT Press ed.

Vanitas Still Life with Skulls on a Table Aelbert Jansz van der Schoor 1660

“Vanitas Still Life with Skulls on a Table” – Aelbert Jansz van der Schoor (1660)

Num belo dia primaveril, Narciso, ao contemplar o reflexo das suas esbeltas feições nas plácidas águas de um ribeiro, inebria-se perante a esplêndida geometria da sua forma. Ainda enlevado perante a dádiva que lhe foi concedida pela Unidade Primordial (Sphairos), constata que as águas se turvam por acção de uma frágil libélula. De imediato se transfigura o seu semblante. Narciso vislumbra uma forma sinistra: uma CAVEIRA! Aterrorizado, ouvimo-lo exclamar em tom pusilânime: «O quam cito transit gloria mundi!». Nesse dia funesto, Narciso tomou uma decisão irrevogável, confinando-se a uma posição de total clausura no EREMITÉRIO DAS ARRUDAS. Ainda hoje aí suporta a sua existência, contemplando o monótono cadenciar pelo qual se regem as infindas procissões das sucessivas  gerações de cadáveres adiados que procriam.
Perpétuo adiamento que jamais portará NOVIDADE alguma .*

skulls

* NOTA – Breve comentário de Santo Juliano sobre o que Ovídio (século I a.C. – I d.C.) não desvelou nas “Metamorfoses”, no qual se encontra implícito ainda um reparo a McLuhan (apenas o maior teórico da Comunicação de todos os tempos. Literalmente!), pela sua falta de perspicácia em detectar aquilo que se encontra encriptado na “métrica épica” (hexâmetro dactílico) do famoso autor das peças “Remedia Amoris” e “Medicamina Faciei Femineae”.