A fugacidade de um instante…

«Nous aurons perdu jusqu’à la mémoire
rencontre…
Pourtant nous nous rejoindrons, pour nous séparer et nous rejoindre encore,
Là où se rejoignent les hommes trépassés : sur
Les lèvres de vivants.»

SAMUEL BUTLER

« (…) Les œuvres des hommes sont à l’image de leur corps et de leur esprit, mais toujours devant l’avant dernière, la pénultième.  Il y a des terres pauvres en fantômes, d’autres où des multitudes transparents vous invitent aux enchantements du souvenir (…) »

ANDRÉ MASSON

André Masson. Pour Numancia. 1937.André Masson, “Pour Numancia”,1937.

André Masson - study for a self portrait (1968)

Como é do conhecimento geral, a maior parte das doutrinas gnósticas e, consequentemente, os seus respectivos adeptos, consideravam o corpo humano apenas como um execrável “saco de excrementos”, preterindo este invólucro carnal (fugaz e transitório) à perenidade do espírito. Não obstante, é certo que dessas imensas heresias medievais, muitas consideravam o corpo, e seus fluídos, como imbuídos de uma certa sacralidade, resquícios de uma quase extinta centelha divina, posteriormente devinda num imenso “res nullius” amorfo que é a Humanidade. Pela minha parte confesso perfilhar vários dos aspectos da “cosmologia” gnóstica, tendo inclusive adoptado (e adaptado! Pois hoje em dia não se é herético com a mesma facilidade de tempos idos…) várias das suas premissas à minha mundividência. Também eu pressinto uma certa aura sacra no Corpo (bem como no olhar de vários animais), pelo que sempre decidi nunca o adornar (o meu, obviamente!) de forma gratuita ou leviana. Sendo mais específico, refiro-me a tatuagens. Apenas possuo duas: a primeira delas, uma “Psychic Skull” estilizada – originalmente concebida pela mente genial de Val Denham – imagem epítome de uma subcultura industrial, que eu não tive a felicidade de experienciar “in illo tempore”, e símbolo incontestável de uma imagética associada à TOPI (Temple ov Psychic Youth). A segunda, por sua vez, consiste num “Acéphale” (emocionalmente ligado à memória de uma passagem por Nova Iorque) e criada, como é do vosso conhecimento, por um dos maiores génios das artes visuais do século XX. Refiro-me, obviamente, a André Masson, “compagnon de route dionisíaco de Georges Bataille no periódico intempestivo que foi a revista “L’Acéphale”. E hoje, muito curiosamente, apeteceu-me ler mais sobre André Masson. Para o efeito desloquei-me à biblioteca da FLUP com o intuito de requisitar a obra “La Mémoire du Monde”, livro que compila uma série de entrevistas de Gaëtan Picon a André Masson. Editado em 1974, o exemplar pertencente à Universidade do Porto deu entrada no seu catálogo no dia 13/12/1989, mas nunca foi requisitado anteriormente, soube através da gentil funcionária da respectiva biblioteca. Após a requisição, (re)animado pela perspectiva de uma leitura que se vislumbra voraz, encaminhei-me em direcção a casa. Como sempre passei pela rua Miguel Bombarda (a das galerias), no entanto, um aspecto em particular chamou-me a atenção: uma das galerias tinha um segurança à porta. Curioso, deito uma rápida olhadela para a lista dos artistas ali representados. André Masson é um deles! Estugo o passo e dirijo-me à galerista, inquirindo acerca da localização da obra do artista em causa. Ignoro por completo os Dalís, os Picassos e demais “avidas dollars”, e posiciono-me em reverente contemplação perante a obra…

andre-masson_automatic-drawing-06-1925Efectivamente, este foi um verdadeiro “Chance Encounter”, muito próximo de uma daquelas “experiências de valor” tão caras ao historiador das Ideias Ocultas, o britânico Colin Wilson. Uma experiência apenas igualada pelo primeiro dia de férias, do dia em que nos apaixonámos, ou até do dia em que nos despedimos daquele emprego “seguro”, com um horário das 9h às 17h, enjoados (e enojados) relativamente aos seis meses de salário em atraso…
Concluindo: a ideia metafísica do livro de M. Rouppenel (segundo Gaston Bachelard) é a seguinte: “Le temps n’a qu’une réalité, celle de l’Instant.” E hoje, efectivamente, vivenciei um precioso instante de (re) ligação! Obrigado aos deuses.

A obra de Masson em questão (cujo título não memorizei) data de 1927 e pertence a um coleccionador particular, e encontra-se em exposição na Ap’Arte Galeria de Arte Contemporânea.