Manoel de Oliveira e o ‘indie’screto charme da Burguesia!

Xanti Schawinsky. Untitled (Stage)

Manoel de Oliveira deixou hoje o seu invólucro mortal…
Há apenas alguns momentos atrás foi-me dada essa infausta nova através da Antena 2, exactamente no preciso momento em que me sentava para dar início à degustação do meu almoço. Muito curiosamente, minutos antes, estive à conversa com um amigo. Conversa essa em que o mote principal foi a “Memória da Matéria”. [A matéria orgânica, como todos sabemos, é corruptível (ou corrupta por natureza). Enquanto “última – matéria” (reverso da premissa alquímica base que é a “matéria-prima”), o corpo humano, aquando dos distintos estados de putrefacção a que é sujeito, passa por alguns processos de transmutações cromáticas, cuja analogia pode ser exponenciada com alguma facilidade (e ligeireza, porque não?) para os domínios das Única (e Verdadeira!) “Ars Regia” que é a Alquimia. Na medida em que esta Arte (e não Ciência) Hermética preconiza, em última instância, o supra Conhecimento-de-Si-Próprio, que é exactamente a busca da Pedra Filosofal, percorrida através dos estados comummente designados como “nigredo”, “albedo”, “citrinitas” e “rubedo”, conseguimos, com alguma facilidade, encontrar tal correspondência na vida (Existência) e obra de qualquer mero mortal…] Ouso, portanto, afirmar que a mesma talvez se encontre intimamente articulada com a existência de qualquer ser humano, categoria na qual se contempla um “super-indivíduo” como Manoel de Oliveira.
Pois bem, tomando como ponto de partida o conceito de Memória (palavra aqui é quase sinónima da longa vida do realizador) para esta, quiçá, um pouco imprevista reflexão, parece-me oportuno e legítimo tecer aqui algumas considerações: se calhar, em primeiro lugar, gostaria de afirmar que a memória que guardo de Manoel de Oliveira é, obviamente, totalmente distinta (e distanciada) de muitos daqueles que tiveram, a determinada altura da sua vida, ou carreira (por vezes indistintas uma da outra), a oportunidade de o entrevistar ou inclusive de com ele privar. Contemplo, ainda assim, no decurso da minha humilde existência plebeia, três momentos de interacção com o realizador: o primeiro, por volta de 1997, ano em que eu, simultaneamente tímido e orgulhoso aluno da licenciatura em História na FLUP (munido dos meus cigarros “Gauloises”), no âmbito de uma aula-aberta, ousava interpelar o decano dos realizadores (o último, a par da Leni Riefenstahl, falecida em 2003), acerca de uma questão que agora me parece por demasiado prosaica para aqui referir. O segundo momento, por seu turno, ocorreu em 2005, quando, planeando uma ida ao cinema, nas antigas salas do Centro Comercial Bom Sucesso, no Porto, (para ver um qualquer “blockbuster” – assim, daqueles que o Žižek gosta), fui presenteado com a anulação dessa sessão em detrimento de uma première gratuita (digam-me depois que a cultura é cara!), do filme “O Quinto Império”, com apresentação do próprio realizador e do senhor seu neto, que protagonizava a respectiva película no papel do mui Desejado D. Sebastião. E, por fim, o último momento, ocorrido em 11 de Dezembro de 2014. Nesse dia, o realizador cumpria 106 anos de vida e a cidade do Porto decidiu prestar-lhe a derradeira homenagem. Acho que quem esteve nessa noite no Rivoli assim o pressentiu, pois apenas se tolera uma hora de atraso a alguém que mantém a Morte à distância há imensos anos.
Imensamente agigantado no grande auditório do Rivoli, debalde a sua fragilidade física notória, o ilustre realizador logrou apresentar-nos três das suas películas: “Douro, Faina Fluvial” (1931), “O Pintor e a Cidade” (1956) e ainda “O Velho do Restelo” (2014), se a memória não me falha, – como muito aprazia afirmar ao igualmente – saudoso Mestre, o açoriano Vitorino Nemésio. Pois bem, desses três filmes, apesar de já conhecer o primeiro e, obviamente, desconhecer o último, posso aqui afirmar que fiquei absolutamente rendido ao segundo, ou seja, “O Pintor e a Cidade”. A fotografia do mesmo deixou-me totalmente siderado. Nos créditos finais, a determinada altura, é possível ler-se algo como: “Pelicula Agfacolor”. E hoje, no dia da morte do grande realizador, descubro, ainda através da Antena 2, que no decurso da década de 1950, Manoel de Oliveira, frequentou uma formação em Itália e outra na Alemanha, com o intuito de dominar esta “tecnologia”. (De acordo com as afirmação de um arguto crítico de cinema presente na cerimónia de homenagem – numa década de 1950 em que era visível nas ruas do Porto uma “certa miséria Salazarista”. Infelizmente, na minha humilde opinião, essa miséria ainda é bastante visível, ainda que ignominiosamente travestida na indigência capitalista de quatro décadas em que se tem vindo a brincar à democracia…). Pois bem, é neste mesmo aspecto que eu gostaria de ancorar o grosso da minha reflexão: Manoel de Oliveira, ao longo da sua muito profícua carreira, foi enaltecido quer enquanto arauto das vanguardas cinematográficas (repare-se na sua tentativa de incutir um ritmo “vertiginoso”, uma das premissas basilares das chamadas Sinfonias das Cidades, no seu “Douro, Faina Fluvial”) quer enquanto último representante de uma certa forma de filmar, quase cristalizada no tempo, devedora dos estilos e das estéticas presentes no dealbar do Cinema. Na minha opinião, ambas as perspectivas são válidas, certamente. Ainda assim, gostaria de aportar uma outra, da minha autoria. Refiro-me ao cinema “independente” do realizador. Independente na medida em que, no seu cômputo geral, toda a sua vasta filmografia reflecte a sensibilidade de um esteta, cujo processo de filmagem e respectivo “objecto” artístico, são bem mais importantes do que qualquer preocupação de índole social. E existe algum mal nisso? Não, certamente que não. Acho que teci idêntica reflexão acerca de Vasco Graça Moura, aquando do seu falecimento, e nem por isso deixo de admirar certos aspectos da sua produção literária. Na verdade, de maneira geral, nada tenho contra a sensibilidade estética burguesa, não fosse eu desde idade assaz precoce idade, um destemido leitor de Proust e do seu Tempo Perdido. Ainda assim, importa aqui enfatizar o seguinte: a obra de Oliveira é uma obra independente na medida em que é burguesa e auto-suficiente, daí nunca ter o realizador sentido necessidade da sua “inscrição”. Obviamente que nem por isso é menos válida! É apenas uma outra forma de se “ser” e de se “estar”. Não é, ainda assim, na minha opinião, uma obra inquieta, ou que tenha procurado a sua inscrição, como acabei de frisar . Muito menos uma obra onde esteja patente uma demanda pelo Autoconhecimento. É sim “apenas” (sem qualquer descrédito) um monumental exercício de um esteta magistral. Como tal só me resta afirmar: “Vita Brevis, Ars Longa!”

“Resquiciat in Pace”, Manoel de Oliveira!

Nota Bene:
Eu não vejo televisão, portanto, não sei o que por aí se vocifera, mas, não acham que o realizador merecia uma entrada directa no Panteão? Ou será que a função futura deste irá passar apenas por se tornar o “fiel repositório” dos restos mortais de jogadores de futebol?

FOTOGRAFIA
Xanti Schawinsky. Untitled (Stage),1925-1938.

Porto, 2 Abril de 2015