A Memória Inconsciente das Formas Transfiguradas

«Wolfgang, your proposal is bizarre, but the question is: is it bizarre enough to be true? »
Pergunta efectuada por Niels Bohr a Wolfgang Pauli, após uma conferência deste último.

(atoom = atom, lichaam = body, planeet = planet)

Ao debruçarmo-nos sobre o percurso evolutivo da Matéria Viva, constatamos uma complexidade crescente, uma entropia negativa. Esta complexificação (palavra recorrente no léxico criado por Teilhard de Chardin), iniciada aquando do momento ZERO a que damos o nome de “Big Bang”, tem-se vindo a perpetuar no nosso planeta desde então, através da sua manifestação em várias formas vivas de complexidade crescente, sendo o cérebro humano, possivelmente, a estrutura mais complexa do Universo.
Não será ainda de todo descabido afirmar que a nossa mundividência se encontra alinhada com a dos “Primitivos”, na medida em que a perspectiva evolucionista por nós defendida não opõe o Espírito à Matéria. Almejámos, contudo, uma união progressiva entre a Humanidade e o Cosmos, entre o UM e o TODO, fazendo jus à cosmologia concebida por C. G. Jung, alicerçada na perspectiva de que os Arquétipos derivam em nós enquanto espírito da Matéria e da Memória Original.
O Inconsciente Colectivo, por seu turno (de acordo com a perspectiva junguiana) funciona como um repositório da espécie, enquanto os Arquétipos, por sua vez, vão mais além alargando as fronteiras dessa experiência única a que vulgarmente damos o nome de VIDA.
Alicerçados nas linhas de raciocínio anteriormente explanadas, optámos pela persecução de um Conhecimento mediado através do Arquétipo, traduzido numa Simbólica que dá primazia à Intuição em detrimento da Razão. Simbólica que obviamente se inscreve de forma gradual em todas as Línguas, expressando desta maneira (consonante as épocas) a sua comunhão com o Informulado.

Ophis Thermuthis, sive Ob Basiliscus Ægyptiacus cum Sacerdote Supplicante“Ophis Thermuthis, sive Ob Basiliscus Ægyptiacus cum Sacerdote Supplicante”

Posto isto, o leitor atento terá certamente dado conta de que nos encontrámos a uma pequena distância da Religião (vocábulo com origem no latim “religare”, cujo significado é o de religação), manifestação essencial, simbolizante de uma melhor participação no Universal. A Religião, importa frisar, é convocada aqui enquanto símbolo da perfeita relação entre a Ciência e o Espírito, não olvidando, no entanto, que qualquer desequilíbrio neste relacionamento releva de uma desadaptação do campo lexical da linguagem religiosa com a Ciência, provocando um “bloqueio arquétipo”. Dessa forma, o Arquétipo inconsciente da Religião fica impossibilitado de emergir no Consciente da Humanidade por via da falta de um simbolismo apropriado [neste ponto parece-nos de fulcral importância dar aqui nota de destaque a um diminuto conjunto de investigadores cuja acção desenvolvida se centra neste complexo e movediço mundo dos símbolos: Freud, cujo insight forneceu uma nova luz sobre este campo, ao qual se seguiu o extraordinário entendimento evidenciado pelo seu discípulo dissidente e sucessor, C.G. Jung. Esta nota ficaria incompleta se não referíssemos ainda o extraordinário monumento que é a obra de Gaston Bachelard, consubstanciada em toda uma Poética do Conhecimento. Por último, referiremos ainda, Mircea Eliade, que transformou a sua área de estudos num vasto panorama cosmogónico].
Enquanto a Arte quase por definição se encontra intimamente ligada à dimensão arquétipa na medida em que é geradora de símbolos, a Sociedade, por sua vez, também se encontra em permanente ligação com esta mesma dimensão, pois que na sua essência simboliza os Arquétipos do VIVO, facilitadores da adaptação ao meio exterior. Ainda assim, a Sociedade, não possui a plena capacidade de simbolizar todos os Arquétipos do Universo, mas apenas aqueles intrínsecos à espécie e à VIDA. Acreditamos ainda que as doenças e os desequilíbrios manifestados na nossa contemporaneidade são devidos a determinadas inadaptações, por exemplo, entre a evolução Cósmica e a inércia Social, na medida em que as palavras tornaram-se apenas meras embalagens e não o Real Exprimido. Acreditamos ainda que estas doenças têm a sua origem na não integração de novos símbolos de Arquétipos imbuídos na Linguagem [A título de exemplo atente-se na extrema pobreza linguística veiculada através da imposição do “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990”, que mais parece denotar os graus extremos de afasia dos quais padece a maior parte da população nacional.
Epítomes desta manifesta pobreza são as declarações impunes e vácuas dos políticos portugueses, excelsos arautos do reinado inócuo do “Significante – Flutuante”, território delimitado pelas vastas fronteiras do “nem-nem” (ponto de equilíbrio da segurança máxima, muito bem definido por António Guerreiro, num artigo de opinião intitulado “A Política Virtuosa” (AQUI), em tom de resposta esclarecedora ao “socialista” Francisco Assis. Para finalizar esta nota talvez importe ainda referir que este empobrecimento – dos quais todos somos responsáveis! – nada mais é do que apenas o legítimo criador dos torpes reinados de indivíduos tão medíocres como Sócrates e Passos. O conforto de uma Existência adormecida engendra monstros! Não nos admiremos pois que a Democracia afaste os melhores e perpetue o domínio dos medíocres (não somos só nós a afirma-lo. Atente-se, por exemplo, nas palavras de um economista, Miguel Cadilhe, AQUI.]

Iurta na Rua do Sol 172Numa dimensão individualizada, esta ruptura, resulta num “Arquétipo sem Símbolo” (Não Significante), ou então, enquanto fruto de um grande – demasiado grande! – desequilíbrio entre os diversos Arquétipos, sendo que o Arquétipo dominante passa a impedir outros de se manifestarem: = TOTAL (Esvaziado) + VAZIO (Infinito).
Parece-nos ainda legítimo convocar neste momento os conceitos de Subconsciente e Supraconsciente, na medida em que todos os Arquétipos integram esta última dimensão. Vejamos: todos os grandes temas mitológicos e lendários constituem ecos e miragens, respectivamente, de grandes realidades espirituais supraconscientes reflectidas na esfera onde nos cabe levar a bom (ou mau) curso a nossa Existência. A atracção sobre o que se encontra em baixo é exactamente a mesma atracção sobre aquilo que se encontra em cima (As above, so Below!). A sua cisão, de acordo com Jung, é a verdadeira fonte de todos os males dos quais padece a Humanidade. O Ser Primordial encontra-se no Ser Original. O Amor, manifestado na Matéria proveniente da Força Divina, entrega a energia que conduz à Luz, ombreando entre a aspiração à Existência e a vontade da Inércia, estigma que precede o nascimento e da própria encarnação em nós de uma divindade morta ou adormecida. Desta maneira a consciência do divino é veiculada através de sucessivas incarnações em “matéria surda”. A Divina Mãe carrega o fardo da vida terrena. A dimensão mortal não aguenta tocar o Eterno, da mesma maneira que este não suporta a natureza humana. Interessa-nos sobremaneira o estudo da prima-matéria sobre a qual assenta a essência da Humanidade, não olvidando a relação dialéctica subjacente aos pares aparentemente opostos Natureza/Cultura.
A manifestação do Sonho enquanto imaginário espontâneo, aliado a uma concepção da Arte enquanto imaginário subjugado à força da Vontade, são as nossas premissas. Nesta perspectiva, acreditamos que se os Artistas por vezes podem ser Sonhadores, também os Sonhadores – por sua vez – podem, por vezes, devir em Artistas. A Arte enquanto Sonho e o Sonho enquanto forma de Arte!
Conhecimento, Reflexão, Acção e Amor, eis as forças motrizes das nossas acções!

«The mind can influence an electron by being an electron itself and acting as such. »
– Jean E. Charon

es

A Memória Inconsciente das Formas Transfiguradas” consiste num ciclo de programação musical a cargo de Júlio Mendes Rodrigo e André Fonseca.
Esta iniciativa – que pretende funcionar enquanto “câmara isobárica” estabilizadora dos fluxos sónicos da nossa contemporaneidade – é eminentemente dirigida a artistas de reconhecido percurso, cujo campo lexical da sua acção incorpore, ou orbite, em torno da Música Electrónica nas suas mais diversas variantes.
Enquanto laboratório acientífico de experimentação subterrânea, este ciclo, desafia os artistas a explorarem limites perante uma plateia audaz.

EXPERIMENTALIA votada a uma Electrónica das profundezas!