Twin Peaks Day, 2015

“Diane, 11:30 AM, February 24th. Entering the town of Twin Peaks.”

— Dale Cooper

twin peaksNeste dia (24 de Fevereiro), é já usual que os fãs da série Twin Peaks evoquem, um pouco por todo o mundo, a trágica (mas, obviamente fictícia) morte de Laura Palmer. Este ano, também eu desejo aliar-me a esta iniciativa. Como tal, achei por bem celebrar (um pouco antecipadamente, é certo!) o quarto de século de uma das minhas séries televisivas predilectas. Neste sentido, permito-me a liberdade de escolher um nada inusitado tema: a Morte. E porquê? Bem, poderia discorrer longamente sobre o assunto, no entanto, vou ser comedido e, à guisa de contextualização, irei tecer apenas algumas breves considerações sobre a minha escolha.
Esta semana, que ainda agora iniciou, fica marcada pela morte de uma actriz (de quem eu nunca ouvi falar). Suicidou-se, segundo dizem. Nas redes sociais lamenta-se a sua morte… Na semana passada (dia 19 de Fevereiro), Oliver Sacks, confrontado com a sua própria mortalidade, após ter sido informado que apenas lhe restam algumas semanas de vida, publicou, no New York Times, uma espécie de pré-epitáfio num artigo intitulado “My Own Life”. Perante estas duas mortes, uma consumada, e a outra, apenas e somente, uma crónica anunciada, às quais aliei algumas das manifestações de pesar entretanto surgidas, confesso que não consegui deixar de pensar nas seguintes afirmações de Martin HEIDEGGER:

«Nós não experimentamos num sentido genuíno o morrer dos outros, mas, no máximo, estamos apenas “aí ao lado”.» (…) «A morte é enquanto “é”, essencialmente de cada vez a minha.» [Sein und Zeit, vol. I, Niemeyer, Tübingen, 1927]

Parece egoísta, não parece? Mas, e se as nossas manifestações de pesar, única e exclusivamente, não forem mais do que mera hipocrisia de sobrevivente, efémero pranto de transitório cadáver adiado que procria?
Enfim, sinceramente não sei! (Já sabeis que sou homem de muitas perguntas, mas de parcas respostas). “A Morte” como um dia escreveu Susan Sontag “é o oposto de tudo.”, excepto, atrevo-me a acrescentar, quando se transmuta numa espécie de mito fundador “ab origine” ou então “in illo tempore”, como, de facto, o é a morte de Laura Palmer. Fictícia, mas ainda assim presente através da sua evocação permanente, acompanha-nos há já 25 anos! Assim, questiono-me: numa época em que a informação se propaga à velocidade da Luz, quantos meros mortais (dos reais, não dos fictícios) poderão usufruir de semelhante estatuto post-mortem?