Resquiciat in Pace, Herr Edgar Froese!

«A rude childlike way of recognising the divineness of Nature, the divineness of man; most rude, yet heartfelt, robust, giantlike; betokening what a giant of a man this child would yet grow to! »

Thomas Carlyle, On Heroes, Hero-Worship, and The Heroic in History (1844)

alpha centauriNo passado dia 20 deste mês morreu Edgar Froese, o carismático líder dos lendários Tangerine Dream (usurpando uma expressão de Valter Hugo Mãe: verdadeira máquina teutónica de fazer alemães. Refiro-me em particular a klaus Schulze,a Conrad Schnitzler e a  Paul Haslinger) .
Infelizmente, a sua banda de sempre (os Tangerine Dream, claro), morreu muito antes. Passo a explicar-me: à semelhança de um país corrupto e desgovernado (que dá pelo nome de Portugal), onde existe um Banco Mau e um Banco Bom, também existem uns Tangerine Dream bons (excelentes, aliás!), a que se seguiram uns Tangerine Dream maus (leia-se execráveis!). Em linhas muito gerais a história é fácil de resumir: na Alemanha Ocidental, nos finais da década de 1960, existia um grupo de jovens com um sonho: terem uma banda que soasse igualzinha aos Beatles (aliás, um fenómeno pré – globalização que se propagou aos mais inusitados e inóspitos lugarejos do globo terrestre).Ainda assim, segundo reza a lenda, mudaram de ideias (ainda bem, para eles, assim como para toda a História da música do passado século XX!), pois que só desta forma foi possível que tivessem criado verdadeiras obras-primas como: Electronic Meditation, Alpha Centauri, Zeit e Atem. A estes registos soberbos, seguem-se outros já na fase dita dos “anos Virgin”, e é aqui que a coisa começa a descambar! Ainda assim, editam através desta editora o incontornável Phaedra (tenho duas cópias deste álbum em vinil, e não me desfaço delas por nada deste mundo), assim como o muito bom Rubicon. Fatídico nome, pois que foi este o momento exacto em que os dados foram lançados (alea jacta est),para citar Júlio César, quando este atravessa o rio Rubicão, em 49 a.C. De facto, esta foi mesmo uma decisão irrevogável, em que se vendeu a “alma” ao Grande Capital. A partir daqui editaram os medianos (por vezes medíocres) Ricochet, Stratosfear, Encore, Cyclone, Force Majeure, Tangram, Exit, White Eagle e, por último, Hyperborea (1983). Após esta data, a banda entrou (na minha opinião, claro), em profundo estado catatónico típico de uma sonoridade New Age provecta, polvilhada de sons de golfinhos e baleias. No entanto, Edgar Froese, a solo, ainda consegue editar alguns registos dignos do seu génio (não tivesse ele sido “apadrinhado” por Salvador Dali): Aqua (1974) e Stuntman (1979), são os únicos registos dignos de nota.
Pela minha parte, faço, no entanto um mea culpa, pois precisei de viajar até à Rússia para ficar a conhecer o legado dos Tangerine Dream. Pois que só (infelizmente!) aos 28 anos de idade (em 2001), me foi dada a possibilidade de conhecer os discos Alpha Centauri (1971), Atem (1973) e Zeit (1972), bem como a banda sonora Sorcerer (1977). Com estes discos consolidou-se o meu amor pelas sonoridades dark ambient.
Infelizmente, já não vou ter a oportunidade de o conhecer (ver) pessoalmente (e eu que planeava ir ao seu concerto no próximo mês de Abril, na Casa da Música…ainda que, eventualmente, o resto da “banda” mantenha esta data (a “máquina” TD continua ávida de dólares – tal como Dalí – e isso nota-se no lacónico e periférico comunicado sobre esta morte, no próprio site “institucional”), a mim, esse concerto, já não me interessa.
Para terminar só me resta acrescentar que, uma vida humana, efectivamente, pode ser muito curta, mas um legado pode ser perpétuo, como tal só me resta dizer: muito obrigado Sr.Edgar Froese!
Descanse em paz!

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