Sexto aniversário do Die Elektrischen Vorspiele

Et Quid Amabo Nisi Quod Aenigma Est?

«Depois de aquartelados os monstros numa cidade, num reino ou num império, é natural que surjam outros mais poderosos, a favor de um desastre, da liquidação das nações e das nossas liberdades. Quadro onde consumamos o contrário das nossas aspirações, onde as desfigurámos sem descanso, a História não é por certo de essência angélica. Quando a consideramos, concebemos apenas um desejo: promover a amargura à dignidade de uma gnose.»

Excerto de “Na escola de tiranos” de E.M.CIORAN em “História e Utopia”

Imagini delli Dei de gl’AntichiCartari ,”Imagini delli Dei de gl’Antichi”

No dia em que se cumpre o sexto aniversário deste blogue, gostaria de desvelar aos meus caros leitores alguns aspectos concernentes à sua essência. A criação do Die Elektrischen Vorspiele, em 15 de Janeiro de 2009, obedeceu a duas fontes de inspiração que muitos poderão considerar particularmente inusitadas. Em primeiro lugar, a mise-en-scène ritual que dá o nome ao próprio blogue. Ritualização psicodramática, Die Elektrischen Vorspiele, segundo Anton Szandor La Vey, baseia-se nos ângulos dos filmes expressionistas alemães, cuja prática (oculta, obviamente!), se efectuou no decurso da efémera existência do auto proclamado Império dos Mil Anos (de 1933 a 1945, para ser mais exacto). E, em segundo lugar, a agonia veiculada através do existencialismo dilacerado de Stig Dagerman, presente no seu belíssimo texto, “A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer”.
Concebido como um espaço que potenciasse a organização mental de um “pensamento selvagem” (por consequência, indisciplinado), Die Elektrischen Vorspiele, na sua essência, sempre se propôs a ser um veículo propagador da vastidão dos interesses e afectos do seu mentor. Ainda assim, de forma abertamente camuflada (como entendo ser sempre meu apanágio), socorri-me de uma velha artimanha “trickster”, circunscrevendo o seu campo de acção lexical às fronteiras delimitadas pelo território semântico conhecido por “Occult Esoterica”. O resultado de tal premissa (pelo menos assim gosto de pensar), traduziu-se na repulsa de eventuais neófitos de fácil iniciação, e na aproximação, simultaneamente lenta e cautelosa, por parte de outras mentes, imbuídas de uma índole positivista, as quais, após vencida a repulsa manifestada pelo prurido da “alergia” provocada pela utilização da semântica anteriormente referida, se converteram gradualmente à minha Palavra (não olvidando – certamente! – que esta, na verdade, constitui a verdadeira Mentira😉
Enquanto projecto individual, este blogue, na sua génese, foi também beber inspiração directa ao reservatório perene das Imagens, último reduto dos arquétipos e das pulsões primordiais da Humanidade. Desta forma, as referências visuais que inicialmente tutelaram a arte gráfica deste espaço virtual, consistiram em apropriações directas de algumas das criações emanadas pelo génio e talento de indivíduos como, por exemplo: Val Denham (que muito me honra com a sua participação numa colectânea musical que assinala o sexto aniversário deste blogue, a ser editada brevemente pela netlabel EdP – Editora do Porto) ou ainda, Clovis Trouille, mestre incontestável de um surrealismo sórdido, tão ao meu gosto.
Enquanto resultado mais ou menos directo da existência deste blogue, foi publicado, em Novembro de 2010, o meu livro “Summa Techno(i)logicae”. A partir dessa data começaram a surgir as colaborações periódicas com outros projectos, os quais, por seu turno, são veiculadores de idênticas, mas também, de distintas inquietudes: as revistas Finis Mundi, Infernus e Antibothis, constituem alguns desses exemplos. Ainda sob a égide do DEV (muitas das vezes por via do estabelecimento de distintas cumplicidades), no decurso dos últimos seis anos, foram concebidos e concretizados alguns eventos, cuja ambição principal foi sempre o proceder à evocação da vida e obra de algumas figuras cujos legados marcam, e em certa medida até, justificam e norteiam, a minha própria existência: o músico John Balance (Coil); o historiador das Religiões Mircea Eliade; o poeta e encenador Antonin Artaud; o filósofo Georges Bataille e o escritor Yukio Mishima constituem, pelo menos para já, o line-up destas afinidades electivas. Destaco ainda, a série de eventos realizada no decurso de 2013 (verdadeiro annus horribilis), intitulada Occult Esoterica AV Gatherings, uma iniciativa protagonizada conjuntamente com a minha companheira, Ana Carvalho.
Quase a terminar, importará ainda referir que, muito mais do que o fascínio manifestado pelas temáticas que orbitam em torno dos dois conceitos-chave: i.e. Ocultismo e Esoterismo (os quais, indubitavelmente, orientam, em parte, a minha mundividência) interessa-me, acima de tudo, o campo circunscrito à História das Ideias. Sempre me senti atraído pela identificação da natureza e proveniência das mesmas, através da sua manifestação ubíqua ao longo de uma hipotética História Secreta da Humanidade. Ou seja: exulto com a ideia da existência de uma História coesa por uma “Cadeia de Ouro” – essa aura catena de que Homero nos fala numa famosa passagem da Ilíada. Efectivamente, sem qualquer perplexidade constato agora que, tal como em 2009 (e, quiçá, desde 1973) ainda me questiono diariamente: O que é que eu posso amar, senão o Enigma?
Consciente do facto de a Existência individual assentar num vasto e complexo percurso, mapeado por imensas permutas (axioma magistralmente enunciado na máxima “Dar e Receber”, na acepção outorgada por António Variações), ocorre-me como pertinente finalizar este texto, dirigindo um simples, mas enorme, agradecimento a todos aqueles que, a determinado momento das suas vidas, decidiram apoiar, ou simplesmente interessar-se, pelos meus devaneios, mormente, aqueles por mim consubstanciados via Die Elektrischen Vorspiele.

Gratia!

Júlio Mendes Rodrigo
Porto, 15 Janeiro, anno 2015, era vulgaris