MMXIV – uma retrospectiva

“One does not become enlightened by imagining figures of light, but by making the darkness conscious.”

C.G. Jung

Cartari_Imagini delli Dei de gl’AntichiCartari, “Imagini delli Dei de gl’Antichi”

Permitam-me que afirme o seguinte: 1 e 13 são o mesmo número.
Utilizamos frequentemente o número 12 de forma a dar conta da existência de um ciclo, de maneira que, o número 13, frequentemente, torna-se novamente o primeiro, uma rotação em permanência. Exemplos disso que acabei de afirmar: as horas num relógio, os meses do ano e a escala das notas de música. Está dito o motivo por que apenas agora – já bem adentrado em Janeiro! – me permito estabelecer uma breve retrospectiva sobre o ano transacto.
2014, foi o ano da Sancta Viscera Tua*, a qual, consiste numa série de acções construídas para voz, gesto, som e luz. Este conjunto de acções, dirigido pelo compositor Jonathan Uliel Saldanha, contou com a minha participação enquanto co-autor da dramaturgia, naquela que foi uma tarefa repartida com Saldanha. Informações adicionais sobre esta acção que marcou de forma indelével o panorama artístico nacional, poderão ser obtidas através do site jonathanulielsaldanha.com.
O mês de Maio, por sua vez, revelou-se como sendo o mais preenchido, com um total de três apresentações públicas através da forma de comunicação, aula aberta e conferência. A primeira ocorreu no dia 11 de Maio, e realizou-se na Sonoscopia, no Porto. Refiro-me ao Micro Volumes 3.22 Miguel Pipa (pt) + Alberto Lopes (pt) + José Miguel Pinto (pt) |. Este momento teve lugar no âmbito do ciclo Rumori (Celebração do centenário dos primeiros concertos da orquestra de intonarumori de Luigi Russolo), Este concerto foi precedido pela minha comunicação, “Ocultura Futurista: a entoação de rumores num (im)provável entrecruzamento de vários ismos”. Nesta comunicação, partindo da obra “O Século de 1914 – Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX” (2004) da autoria do historiador francês Dominique Venner, procedeu-se à contextualização das diferentes ideologias vigentes à época do nascimento e implantação do Futurismo. Foi ainda dado destaque a duas obras representativas de distintos posicionamentos no que concerne à coexistência deste movimento artístico com o Fascismo Italiano: (“O Movimento Futurista em Portugal” (1966) de José Alves das Neves e “O Futurismo Italiano: estética, ideologia, fascismo” (1999) de Luís Bensaja dei Schirò).Pretendeu-se ainda, partindo da obra “ Luigi Russolo: Noise, Visual Arts and the Occult”, de Luciano Chessa, mapear a influência das doutrinas Ocultistas na vida e obra de Luigi Russolo. A partir da análise da obra ““Thougt-forms”(1901) de Annie Besant e Charles W. Leadbeater, acabou por se concluir que importa estudar com um maior grau de profundidade a real influência do movimento teosófico em Russolo. Conclui-se ainda que poderá ser de extrema pertinência encetar estudos mais aprofundados no que concerne aos dados biográficos mais íntimos (epistolografia, etc.) acerca do autor do manifesto da Arte dos Ruídos, alicerçados numa perspectiva do “Outsider” (1956) tal como estudada de forma magistral pelo autor britânico, Colin Wilson.
O segundo momento desse mês de Maio aconteceu no dia 13. Refiro-me à Aula Aberta ““NADA DE DOGMA: reflexões sobre uma poética do espaço cénico”, iniciativa efectuada no âmbito da Unidade Curricular de Artes Cénicas, da Licenciatura em Artes e Multimédia do ISMAI (Instituto Superior da Maia). A apresentação tomou como ponto de partida o conceito de “Gesamtkunstwerk” de Richard Wagner, na origem de muitas das inovações introduzidas nas Artes Cénicas no decurso dos últimos cem anos. Este contributo inequívoco é complementado com a criação de uma hermenêutica simbólica-materialista e alquímica, surgida nos campos da investigação do Imaginário. Contrapondo a priorização da Imaginação Reprodutora, preconizada pela tradição filosófica Racionalista, com as reflexões encetadas por Carl Gustav Jung e posteriormente por Gaston Bachelard, em torno da noção de Imaginação Criadora, apresenta-se uma alternativa hermenêutica à lógica dissociativa do actual paradigma. Para o conjunto de reflexões em torno da temática em análise, foi levada em linha de consideração a obra “O Espaço Vazio” (1968) de Peter Brook, assim como as hermenêuticas definidas por autores como Mircea Eliade cuja obra “O Sagrado e o Profano”, serviu, posteriormente, de mote para o estabelecimento de uma topo-análise do Espaço Sagrado e subsequente Sacralização do Mundo. Foram ainda contemplados os contributos de autores como Lima de Freitas, Gaston Bachelard, e Gilbert Durand. Para uma explanação dos pressupostos estabelecidos pelos autores atrás elencados, foram utilizados como exemplos ilustrativos, algumas obras de autores como: Carl Theodor Dreyer, Vincenzo Natali, Lars von Trier. Foi ainda analisada, no contexto desta topo-análise a peça “Sancta Viscera Tua” com direcção a cargo do compositor Jonathan Uliel Saldanha.
Um terceiro momento, ainda neste mês de Maio, aconteceu no dia 16 através da participação na conferência internacional “Intercultural Changes in the Age of Globalization”, que teve lugar na Universidade Lucian Blaga de Sibiu (Roménia), e na qual participei enquanto investigador independente, integrando o painel X: Media and Communication Studies, em que apresentei a comunicação “A different approach to surface manifestations on the web 2.0 – The example of ac2012.com, based on the ideology of Aleister Crowley”.

satan01-354x500 Em Setembro, no dia 13, na sequência do trabalho intenso efectuado nos meses de Julho e Agosto, aconteceu a performance intitulada “A Torre Fulminada”, onde fui o responsável pela investigação que deu origem à mesma, e ainda, co-autor da dramaturgia. Entre as 00:00 horas do dia 14 de Julho de 2014 e as 23:59 do dia 1 de Agosto, a Fundação Bracara Augusta, em parceria com a Câmara Municipal de Braga, abriu concurso para intervenções artísticas que visassem integrar a iniciativa “ Braga Vai Passar a Noite em Branco 2014”. De acordo com fonte oficial, foram submetidas cerca de 170 candidaturas. Apenas 13 foram aprovadas. Uma dessas candidaturas foi “ A Torre Fulminada”. Este acto poético/performativo tomou como ponto de inspiração para a sua concretização um dos Arcanos Maiores do Tarô, neste caso a carta XVI, comummente designada de “A Torre”, “A Torre da Destruição”, ou ainda, “A Casa de Deus”, estabelecendo um ponto de íntimo contacto entre a importância simbólica do número 7, em estrita consonância com os pressupostos intrínsecos à Numerologia Pitagórica.
Ainda em Setembro, e após o gentil convite que me foi endossado pelo Francisco Laranjeira, procedi à programação do ciclo de cinema Res Nullius**. Este ciclo teve lugar na Rua do Sol 172 (entre os meses de Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro) e teve como objectivo primordial proceder a um eventual mapeamento da ontologia do Corpo no âmbito da Sétima Arte.
Em Outubro, no dia 9 para ser mais exacto, mercê do afectuoso convite que me foi endossado pela dupla de DJs, Lynce + f a n t a s m a, tive a oportunidade de passar discos no Café au Lait, no Porto. Esta fantástica noite foi abrilhantada pela componente visual criada propositadamente para este evento pela artista intermédia Ana Carvalho. Um registo sonoro dessa noite encontra-se disponibilizado a partir no meu canal no Mixcloud, AQUI.
Na sequência do amável convite que me foi endossado pela  artista Isabel Carvalho, no dia 30 de Outubro, participei na leitura que integrou a exposição “seguir as luzes verdes / following the green lights“, aquando da sua inauguração, neste mesmo dia, no espaço ARTES – Programa de Arte Contemporânea da Fundação Manuel António da Mota. Uma derradeira leitura foi ainda efectuada no dia 6 de Dezembro, dia de encerramento desta exposição.
No dia 1 de Novembro (dia de Todos os Santos), decorreu a apresentação do livro dos desenhos do Miguel Carneiro, “Em Terra Cus Quem Tem Rei é Cego”, publicação que integra dois textos da minha autoria: Cavitas Oris Dentata e Tuum Cerebruum Putrida, respectivamente.
Quase a finalizar o ano, no dia 13 desse mesmo mês de Novembro, numa iniciativa conjunta com o João Ricardo da EdP – Editora do Porto, realizou-se ainda a iniciativa SLEAZY BALANCE ~ Chance Encounters Invocation I ~ ov Balance. Este evento ecoou a memória de um outro, realizado cinco anos antes (13 Novembro 2009), na Fábrica de Som, em que o objectivo foi exactamente o mesmo: evocar a memória de John Balance (Coil).

andromed1
2014, foi ainda o ano do nascimento do meu projecto profissional mais recente, a ANDRÓMEDA – Agenciamento & Produção. Por consequência, convido-vos a conhecerem este projecto através de uma visita ao site (AQUI) ou à página Facebook (AQUI).
Quanto a este ano de 2015, ainda no seu dealbar, já se vislumbram algumas novidades, a serem devidamente noticiadas em breve. Assim, para já, despeço-me com amizade, convidando-vos à visualização do belo teaser de apresentação da ANDRÓMEDA – Agenciamento & Produção, realizado por Ana Carvalho, com música de Sturqen.

* A première aconteceu no Porto, na Igreja de Santa Clara, no dia 12 de Abril. A este momento, sucedeu-se um outro, com uma apresentação da Sancta Viscera Tua na Igreja de São Francisco, em Guimarães, no dia 16 de Abril.

** Latim para “corpo de ninguém” ou “terra de ninguém”.