Matanças anno VII – “Para Além do Bem e do Natal”

Segunda-feira, dia 22 de Dezembro, anno 2014
Casa Viva
Praça do Marquês, 167, pelas 6h66m

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 “Se alguém interpretar isso no sentido de que Deus esteja refutado e o demónio não — seria o caso de avisá-lo de que não usamos linguagem vulgar. Ao contrário! Ao contrário, meus amigos! E de resto que diabo obriga a falar em linguagem vulgar?

 – Frederico Nietzsche, na sua obra “Jenseits von Gut und Weihnachten”, vertido de forma singela na língua de Camões (O ciclópico erudito. Aquele que corria atrás de Leonor, a formosa e não segura, sempre adornada de sua cinta de fina escarlata e sainho de chamalote), como “Para Além do Bem e do Natal”.

poster matanças VIICartaz por Dayana Lucas

À semelhança do ano transacto (ainda que, eventualmente, com menor número de transacções, mercê do paupérrimo poder de compra resultante do estupro e saque perpetrado sobre esta ocidental praia lusitana, por parte de alguns energúmenos democraticamente eleitos por quase todos nós), realizar-se-á, no dia a seguir à celebração do Solstício d’Inverno, mais um Matanças.
Reunir-se-ão, portanto, na Casa Viva (sita na Praça do Marquês de Pombal, 167), os mais fervorosos acólitos e neófitos de Sua Majestade Infernal, o Diabo (do latim diabolus, por sua vez do grego διάβολος, traduzido como diábolos, “caluniador”, ou “acusador”).
Nesta que é a sétima edição deste festival urbano, legítimo herdeiro do Festival Romano conhecido como Saturnália (tradicionalmente celebrado no dia 17 de Dezembro, mas ao longo dos tempos alargado à semana completa, terminando a 23 de Dezembro, enquanto verdadeira válvula de escape dos recalcamentos existentes na sociedade romana), é digna de registo, uma chamada de atenção relativamente ao simbolismo do número SETE.
No sistema mântico conhecido por Tarô, o Arcano VII é o Carro. O Arcano do Domínio e do Repouso. Atentemos, ainda que brevemente, na sua descrição:
“Dois indivíduos das forças de segurança transportam uma espécie de pseudo-antropo. Sentado, vislumbra-se um homem auto-coroado, conhecido por, em tempos áureos, transportar um ceptro em sua mão direita (i.e. um “canudo” académico emitido por uma instituição independente, num Domingo, dia de descanso de Nosso Senhor, Jesus Cristo). Na parte frontal do carro (a única visível), em boa parte dos tarôs clássicos, é possível vermos um escudo com duas letras, que variam com as editoras das lâminas (Na versão por nós consultada, conhecida como Tarot de Évora, encontram-se inscritas as letras: J.S).
Mais do que citar dois simples agentes da autoridade, podemos ressalvar que se tratam de corpos dianteiros, fundidos no próprio carro. Os dois homens olham para a esquerda, mas a sua disposição é tal que parecem andar cada um para o seu lado. O homem da esquerda levanta a mão direita, e o da direita, a mão esquerda. O carro repousa sobre quatro rodas.
O homem, que tem uma coroa do tipo das de marquês, tem a mão esquerda sobre um saco azul, na altura da cintura, e na mão direita traz o já referenciado ceptro, que termina por um ornamento esférico encimado por um cone. O peito do personagem está coberto por uma couraça, enfunado como o de um pavão (símbolo da Vaidade). Cada um dos seus ombros está protegido por uma meia-lua, com rostos de expressão diferente.
Os cabelos do personagem são grisalhos e seu olhar encontra-se ligeiramente voltado para a esquerda, no mesmo sentido que o dos polícias atrelados ao carro.
Uma quina de cinco plantas brota do solo. Não aparecem rédeas ou qualquer outro meio de guiar o carro (Eis-nos perante o total desgoverno dos governados!).
Sentido negativo: Ambições injustificadas, vanglória, megalomania. Falta de talento e de consideração. Governo ilegítimo, situação usurpada, ditadura. Oportunismo perigoso. Preocupações, cansaço, actividade febril e sem repouso. Perda de controlo.”

apocalypse_tarot___the_chariot_by_francesco_biagini-d6mop2wApocalypse Tarot: “The Chariot” por Francesco Biagini

Como vedes, será debaixo do signo do arcano VII que se vão abrir as habituais válvulas de escape saturninas e dionisíacas!
Para dar vazamento às nossas pulsões mais primevas, que clamam pelo jorrar gemebundo do sangue dos nossos governantes (não vos apoquenteis, contudo – apenas será servido vinho tinto, assim estou certo!) encontra-se anunciado o seguinte line-up:

BILIOSA (não a da Pampilhosa, mas sim a da bílis negra, a mesma do Robert Burton imortalizada na sua “Anatomia da Melancolia”)
DJ Lynce (ibérico de gema e invicto por natureza!)
Frio Bruto (para nos habituarmos à ideia de uma futura Humanidade criogénica)
Fu(n)dido
H Warrior And The Burnouts
Lucifer’s Ensemble (pós Kenneth Anger)
One Erection
Putnam Was The Bastard
Altar da Sara (a nossa padroeira predilecta do bom cinema de contornos underground)

io Saturnalia!
io Matanças!
io Pan!

Nota Bene
Infelizmente, a capital do Vale do Sousa (Penafiel), uma vez mais, não se encontrará representada neste evento. Assim, é com o transtorno próprio de uma alma pesarosa que anuncio a anulação do concerto do duo folk-noir Alva Pena, excelsos praticantes de uma sonoridade pós Death in June. A performance electroacústica por parte do Dux do IPCAM (Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica/Música), núcleo de Rans (cujo presidente honorário, e vitalício, é o Dr.ValenTino), foi igualmente anulada por falta de verbas para pagar a portagem entre Penafiel Sul e Águas Santas.