Tierra: Infierno + The Pillow Book

[Sol] Cineclube
CICLO DE CINEMA – Res Nullius / Corpo de Ninguém
Quinta – Feira, 16 Outubro de 2014 às 21:30h
Rua do Sol, nº172 – Porto

«O abandono da “Mulher Universal” jazendo infecunda no Subconsciente da humanidade; E a humanidade desfazendo-se no fosso…Salve! O convencionalismo desta era está chegando ao fim e com ela, a ressurreição da Mulher primitiva.»

Austin Osman Spare in “Terra Inferno”

(…) Ela [a Mulher] é aquela que assume uma sexualidade que transgride as normas convencionais da reprodução e do hedonismo, e se entrega à aventura de um verdadeiro culto do corpo. Não o corpo da Natureza que se reproduz insaciavelmente, mas o corpo estéril e improdutivo, onde a carne vitalizada pelo desejo e a imaginação se torna matéria sacralizada, uma teofania. Nesta sexualidade, no entanto, cruza-se o princípio da vida e da morte, ela é o lugar onde os deuses antigos vão morrer e renascer, uma “petite mort” como diziam os libertinos, que Georges Bataille tão genialmente tratou nos seus romances e ensaios muitos anos depois. Neste círculo fechado, onde a mulher e o homem se misturam, nesse círculo aberto e receptivo que é também o corpo feminino, o prazer extremo desencadeia experiências visionárias, em vez de procriação. Esta é a base mistérica em que o conceito de bruxaria parece ter sido vivido na Europa, reminiscência talvez do gnosticismo e de xamanismo, e que Austin irá fazer o cerne da sua filosofia mística e do seu culto mágico pessoal. Por isso ele afirma sibilinamente neste livro: ’…entrando na consciência de meu ser real, descobri em recolhimento a “mulher toda poderosa”, e me desencaminhei com ela, pelo caminho em frente. Salve! Oh Jóia dentro do Lotus.” (…)

Gilberto de Lascariz em “O Culto da Bruxaria no Artista e Escritor Austin Osman Spare”

Earth InfernoFotograma do filme “Tierra: Infierno”

Na próxima quinta-feira, dia 16 de Outubro, será exibido o quinto filme deste ciclo intitulado “Res Nullius”, o qual, toma por mote da sua materialização uma perspectiva ontológica acerca do lugar do Corpo, tal como reflectido/percepcionado/questionado em determinados momentos da carreira de alguns dos realizadores representados nesta selecção.
O filme principal desta sessão é “O Livro de Cabeceira” de Peter Greenaway.“ The Pillow Book”, no seu título original, conta-nos a história duma rapariga japonesa que gosta que os seus amantes escrevam sobre o seu corpo. Filme sobre a arte caligráfica, não como extensão mediática do corpo humano, mas como ritual de sensualidade.
No cinema de Greenaway, este filme marca a introdução de tecnologias ensaiadas na sua mini-série para televisão TV “Dante”. Aqui o realizador assume a superfície sensorial do plano também como suporte epidérmico de inscrição multimédia. Imagem dentro de imagem, múltiplos pontos de vista e sobreposição de camadas de texto servem uma caligrafia de ruptura com a linearidade narrativa do cinema mais ortodoxo.

Holanda, Reino Unido, França, Luxemburgo; 1996
Drama
122 Min., P&B/cor
Idioma: Inglês, Cantonês, Italiano, Japonês, Mandarim, Francês
Legendas: Português

pillow bookFotograma do filme “The Pillow Book”

O filme de Peter Greenway será precedido por uma curta-metragem inspirada no livro “Earth Inferno” (1905) do artista e ocultista inglês Austin Osman Spare. A data da realização de “Tierra: Infierno” remonta ao ano de 2003 e é da autoria da dupla argentina, Mor Navón e Julian Moguillansky. Um filme visualmente luxuriante e que repercute os cânones próprios de uma certa filmografia de contornos esotéricos na linha de um Kenneth Anger, posteriormente mimetizados na curta carreira cinematográfica de Marjorie Cameron, ou até na série de filmes realizados no início da década de 1980 por Genesis Breyer P – Orridge e seus pares na TOPY (Temple ov thee Psychic Youth).