STURQEN – entrevista ao Die Elektrischen Vorspiele

STURQEN é um projecto musical que vive de frequências fortes. Activos desde 2009 e já com vários álbuns e EPs lançados, César Rodrigues e David Arantes são uma dupla de exploradores sonoros que têm nas máquinas analógicas o seu ponto de partida. As composições difíceis de classificar mostram pistas de uma música que varia entre um pós-industrial mecânico e paisagens anárquicas onde a improvisação não deixa que hajam momentos monótonos. STURQEN é música sem concessões que traz sempre um radicalismo sonoro intenso para as suas performances ao vivo.

Sturqen

Apresento-vos, já de seguida, aquela que constitui a primeira entrevista concebida propositadamente para publicação no Die Elektrischen Vorspiele.
Do meu ponto de vista, este é um dos projectos musicais mais interessantes da actualidade a operar dentro daquele que vulgarmente se designa como espectro musical de contornos mais exploratórios. Como poderão os meus caros leitores constatar, a máquina STURQEN, continua (muito bem afinada) e a trabalhar sem paragens (desde 2009). Ainda assim, César Rodrigues e David Arantes, conseguiram dispensar parte do seu tempo e atenção para a concessão desta entrevista. Aproveito para reiterar mais uma vez o meu sincero agradecimento a ambos pelo tempo e disponibilidade que manifestaram para a realização da mesma.

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Qual a origem do nome Sturqen? Existe alguma razão em particular para terem escolhido o mesmo como nome próprio do vosso projecto conjunto?
Foi uma palavra que surgiu por acaso. Não tinha significado, soava-nos bem e não havia registos online de alguma vez ter sido usada. Era uma palavra virgem à espera de ser preenchida com significado.

Ambos têm formação na área das artes plásticas. Essa especificidade contribuiu de alguma forma para a génese dos Sturqen? Contribuiu de forma directa, ou catalisou algum tipo de inspiração para a música que actualmente compõem?
As artes plásticas contribuíram e contribuem de forma activa para que a nossa música exista. Não nos prendemos à música numa sala fechada. As maiores provocações motivacionais surgem de representações visuais, de momentos estranhos, de ideias num debate. Pouco nos interessa acompanhar o que se vai fazendo musicalmente neste momento, até. O nosso casulo guarda mais imagens que sons. A música permite-nos pensar esteticamente sem estarmos presos a uma representação visual, mas essa visualidade existe e é explorada e expandida através de uma viagem sónica que estrutura sentidos e conceitos. Mas o mais importante são os impulsos. É muito raro ficarmos presos a um conceito ou tema que dirija o nosso trabalho. As ideias vão aparecendo e desaparecendo de uma forma livre e são os impulsos que definem quais delas serão trabalhadas.

Confesso que na minha primeira audição de Sturqen, fiquei com a sensação de estar perante uma sonoridade bastante original. Ainda assim, talvez devido a alguma primeva necessidade de catalogação por parte da mente humana, tive a oportunidade de constatar posteriormente que o vosso projecto é remetido para a mesma secção musical onde se encontram nomes como Emptyset, Pan Sonic, Roly Porter, ou até mesmo alguns dos alteres egos musicais de Dominick Fernow. Como reagem à catalogação da vossa música em termos de géneros musicais?

De uma forma geral, aceitamos bem as etiquetas que nos são atribuídas. Isso deve-se ao facto de não pensarmos muito sobre essas questões. Reflectimos na forma como fazemos música; não pensamos a nossa música em função de géneros musicais. Fazemo-lo de uma forma inconsciente e que nos permite ter uma liberdade imensa sobre o nosso trabalho, porque como não está preso a um género musical específico, não nos temos de preocupar se hoje fazemos Noise e amanhã fazemos Techno. Isso seria engavetar gavetas. Encaramos todos os resultados a que chegamos como uma exploração livre do som que culminou numa “forma” que, para melhor ser divulgada pelo público ou pelos intermediários que publicitam a música, tem de ser categorizada. No entanto, isso não condiciona o nosso método de trabalho.

E relativamente ao estabelecimento de comparações com eventuais afinidades estilísticas/sónicas com outros músicos?
Até hoje, todas elas tiveram uma razão de ser. Algumas dessas comparações fixam-se no plano do estilo musical – e, neste plano, não nos parece difícil estabelecer relações -, outras fixam-se no plano da abordagem à música, ou seja, no método de pensar o som, ultrapassando questões de técnica. Para nós, estas são as comparações mais interessantes pois envolvem um outro tipo de entendimento sobre o nosso trabalho; um entendimento que vai para além da estrutura base de uma música e que tem um olhar panorâmico para a forma como as diferentes músicas se conjugam. Quando são estabelecidas comparações com outros artistas neste sentido, então para nós é definitivamente mais interessante pensar sobre isso.

A nível internacional, no contexto do espectro musical onde desenvolvem a vossa actividade, têm vindo progressivamente a solidificar uma excelente reputação, como atesta a atribuição de dois prémios no ano de 2011, no âmbito dos Qwartz Music Awards. E em Portugal, sentem que o vosso trabalho é reconhecido?

Em Portugal o nosso trabalho não é muito divulgado mas vai sendo seguido por algumas pessoas. Com os anos a passar, vemos cada vez mais que o maior interesse vem de fora. Por cá sempre existiu um grande debate sobre a forma como o país trata os artistas, ou determinados tipos de expressão artística. O reconhecimento é algo que depende de muitas variáveis, e a maior parte delas escapa ao nosso controlo. Também não é no plano do reconhecimento que encontramos a nossa motivação para trabalhar, pois se assim fosse, a maneira como nos relacionamos com as pessoas que nos ouvem, ou a forma como nos apresentamos, seria diferente. A forma como lidamos com o público, ou a forma como utilizamos as redes sociais, por exemplo, é sempre um pouco “desligada”. Isto não acontece por desprezo, é apenas uma maneira de ser. Em relação a quem nos ouve, trabalhamos de forma indiferenciada, ou seja, as coisas vão-se construindo fluidamente e não fazemos nenhum esforço para chegar a um qualquer público específico. Com o passar do tempo temos percebido que a nossa música é seguida por pessoas muito diferentes e de idades muito distintas. Nunca há um ouvinte certo.

No âmbito do panorama musical português da actualidade (leia-se aquele que normalmente é designado como “independente”), sentem que existe espaço, melhor dizendo, audiência, para uma banda como os Sturqen?

Existe sempre. A dimensão da audiência é que pode variar consoante determinados factores. A nossa música não responde às necessidades imediatas da maior parte dos públicos existentes; não é um entretenimento festivo de massas e também não é propriamente uma música acessível, não é easy listening. No entanto, se as pessoas se sentissem atraídas pela violência do som da mesma maneira que são atraídas pela violência da imagem, talvez o interesse fosse maior. Se calhar aqui torna-se pertinente a questão do género musical. A maior parte da audiência já está preparada para receber um determinado tipo de música; resta apenas produzi-la e esperar que tenha sucesso. Noutros casos, a música já existe mas é necessário conquistar a atenção da audiência.

No contexto das artes visuais (cinema incluído) e literatura, quem são aqueles que consideram como os vossos artistas/autores predilectos?
Há terrenos que nos despertam algum interesse especial, mais do que autores específicos. No domínio das artes visuais em concreto, interessam-nos artistas que exploram as estranhezas e ambiguidades do quotidiano em todo o seu esplendor, desde o unheimlich ao absurdo. Não duvidamos do carácter comunicativo que a arte tem mas por vezes ela comunica de uma forma bastante incerta e inacessível. Isso é excitante. É nessa comunicação ambígua que reside o seu poder. Interessa-nos bastante o trabalho de alguns artistas que cruzam a arte e a ciência. A ciência está a avançar muito rápido com descobertas que levantam questões cada vez mais complexas, principalmente no campo da ética. Convém que existam artistas que, através dos seus trabalhos, exerçam alguma reflexão sobre estes avanços.
Somos atraídos pela forma desinteressada com que algum cinema retrata a relação do Homem com as coisas num mundo cada vez mais contraditório, e isso implica a violência sublimada e a ausência de sentidos. Numa época como a nossa, em que o excesso de informação parece dissimular o propósito de tantas coisas, este vazio faz-nos olhar para as situações de forma activa. É interessante que no auge da sociedade da informação ainda exista espaço, e cada vez mais audiência, para teorias paranormais e novas espiritualidades. Temos uma grande curiosidade sobre este tipo de fenómenos e por esse motivo somos fãs de experiências que põem em causa a fronteira realidade/ficção.
Há autores interessantes no campo do fantástico e da literatura distópica. São lugares tentadores para pensar em realidades alternativas e por vezes também servem para reflectir sobre o nosso próprio futuro enquanto sociedade. As histórias que analisam a forma como percepcionamos os objectos que nos rodeiam levam-nos a pensar sobre a forma como nós próprios interpretamos as coisas e, no limite, levantam a questão de se não seremos apenas peixes presos num aquário.
Neste contexto, a música permite que haja um afastamento entre as imposições da lógica e os impulsos que não devem ser contidos.

Na minha opinião, certos vídeos que ilustram alguns dos vossos temas, reflectem a sobriedade austera perceptível nas vossas composições musicais. A dimensão visual da vossa música, assenta nalgum tipo de colaboração regular ou também é produzida por vós?
Tentamos não sermos nós a construir imagens para a nossa música, achamos que isso poderia fechar o circuito imagem-som num único universo. Ao serem outras pessoas a pensarem a imagem do nosso trabalho, esse circuito mantém-se sempre aberto e tem a potencialidade de ser sempre diferente. Temos trabalhado com pessoas próximas de nós. Várias ideias vão surgindo e gostamos de ir recebendo essas propostas de fora. Dá para expandir o nosso imaginário, são surpresas enriquecedoras que nos permitem perceber de que forma a nossa música é percepcionada por quem a ouve.

Desde 2009, vocês já editaram quatro álbuns. Três deles através da editora ucraniana Kvitnu Records. Quais os contornos que estão na origem desta relação com a editora eslava?
Começou como uma relação estritamente musical, uma aposta até algo cega deles no nosso trabalho, numa altura muito inicial do projecto quando ainda só um pequeníssimo grupo de pessoas nos conhecia. As coisas foram acontecendo e, depois de termos estado com eles pessoalmente bastantes vezes, agora sentimos que somos parte de uma família de amigos, não os vemos só como uma editora de música.

Em Portugal, quem quiser adquirir a vossa discografia, tem de se resignar ao método de aquisição online, ou pode encontrar as mesmas nalgumas lojas?
Algumas edições estão disponíveis na Matéria Prima do Porto e na Flur, em Lisboa.

No decurso deste ano de 2014 já editaram dois registos: um 12″, “Zebu” e uma Cassete, EP, “Riscos”. Têm prevista a edição de mais algum registo até ao final deste ano?
Há várias coisas agendadas mas sem datas concretas. Muita música para ser lançada e colaborações com novas editoras. A máquina continua a trabalhar sem paragens.

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Links:

http://www.sturqen.com/

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