Res Nullius *

[Sol] Cineclube

CICLO DE CINEMA
Setembro, Outubro e Novembro de 2014
Quintas-Feiras às 21:30h na Rua do Sol, nº172Porto

«O mundo real permanece como um dejecto do nascimento do mundo divino: os animais e as plantas reais separadas da sua verdade espiritual reencontram lentamente a objectividade vazia dos instrumentos, o corpo humano mortal é pouco a pouco assimilado ao conjunto das coisas. Na medida em que é espírito, a realidade humana é sagrada, mas é profana na medida em que é real. Os animais, e as plantas, os instrumentos e as outras coisas manejáveis formam com os corpos que os manejam um mundo real, submetido e atravessado por forças divinas, mas decaído.»

Georges Bataille em  “Posição do mundo das coisas e do corpo como coisa”, parte integrante da sua “Teoria da Religião”.

Cinético, estético, ideológico, transgressor, mutilado ou forense: são apenas algumas das imensas adjectivações passíveis de serem utilizadas num eventual mapeamento da ontologia do Corpo. Múltiplas são, portanto, as camadas semióticas interpostas e entrecruzadas gramaticalmente no palco onde se desenrola a dramatização intemporal da questão da Identidade. Ainda assim, a evocação da imagem do Corpo, encontra-se normalmente associada a uma leitura mais imediata, mas, talvez por isso mesmo, simultaneamente, mais ambígua. Ou seja, aquela que se encontra delimitada em estrita concordância com os cânones delimitados pelo Erotismo. Neste âmbito, também o campo das Artes, muito particularmente o do Cinema, tem desempenhado um imprescindível papel naquele que é, por norma, um exercício perigoso, pois que, no entender do saudoso ensaísta Eduardo Prado Coelho, «… oscila entre o risco da confidencialidade adolescente e as banalidades de uma retórica sem fulgor».
Alertados que estamos para esse risco (outros existirão, certamente), ousemos, ainda assim, reolhar para o Corpo à luz de algumas das suas possíveis taxonomizações.

Júlio Mendes Rodrigo

andre masson mirroir 2

Ilustração de André Masson para “Miroir de la Tauromachie” de Michel Leiris

O ciclo de cinema Res Nullius / Corpo de Ninguém, consistirá num conjunto de doze sessões que decorrerão entre os meses de Setembro, Outubro e Novembro de 2014.

Eis a lista de filmes a serem exibidos, aqui ordenados apenas por ordem alfabética do nome do realizador:

Alain Robbe-Grillet Glissements Progressifs du Plaisir (1974)
Andrew Repasky McElhinney Story of the Eye (2004)
Derek Jarman Sebastiane (1976)
F.W. Murnau Tabu (1931)
Jean-Claude Brisseau Les Anges Exterminateurs (2006)
Jess Franco Die Liebesbriefe einer Portugesischen Nonne (1977)
Ken Russel The Devils (1971)
Leni Riefenstahl Olympia (1938)
Nelson Pereira dos Santos Como Era Gostoso o Meu Francês (1971)
Peter Greenway The Pillow Book (1996)
Rainer Werner Fassbinder Querelle (1982)
Walerian Borowczyk La Bête (1975)

Para além dos filmes elencados no cartaz, serão ainda exibidas algumas curtas metragens realizadas por nomes como: Alain Resnais, Aldo Lee & Dionysos Andronis, Jean Genet, Kenneth Anger, Kurt Kren, Maria Beatty, Mor Navón & Julián Moguillansky, Otto Muehl, Pierre-Luc Vaillancourt e Yukio Mishima.

(As datas de cada uma das sessões serão divulgadas oportunamente através dos canais usuais.)

*Latim para “corpo de ninguém” ou “terra de ninguém”.

andromeda-ciclocinema finalCartaz por Dayana Lucas