A Essência do Fanatismo

«O fanático não é  fanático: é IMBECIL!»

Saint Julian dixit, inspirado por uma verdade axiomática proferida por São Martinho de Heidelberga (mais conhecido por Heidegger), reitor dos nazis em tempos idos. São Martinho Heidegger é também conhecido pelo seu relacionamento “clandestino” com Hannah Arendt, filósofa judia alemã antifascista (eis-nos aqui perante um outro axioma ou então, quiçá, apenas, perante uma simples redundância, se é que me faço entender).

The Martyrdom of St Denis (1885) by Léon Bonnat“The Martyrdom of St Denis” (1885) by Léon Bonnat

Para aqueles que não denunciam mas que, ainda assim, por “magnânima condescendência”, se limitam a “anotar”, tomo a LIBERDADE de citar já de seguida o muito impoluto humanista Bertrand Russel, que tece assertivas considerações acerca d’A Essência do Fanatismo!
Tomem nota, por favor!

«A essência do fanatismo consiste em considerar determinado problema como tão importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do pão ázimo na comunhão do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da península indiana estão dispostos a precipitar o seu país na ruína por divergirem numa questão importante: saber se o pecado mais detestável consiste em comer carne de porco ou de vaca. Os reaccionários americanos prefeririam perder a próxima guerra do que empregar nas investigações atómicas qualquer indivíduo cujo primo em segundo grau tivesse encontrado um comunista nalguma região. Durante a Primeira Guerra Mundial, os escoceses sabatários, a despeito da escassez de víveres provocada pela actividade dos submarinos alemães, protestavam contra a plantação de batatas ao domingo e diziam que a cólera divina, devido a esse pecado, explicava os nossos malogros militares. Os que opõem objecções teológicas à limitação dos nascimentos, consentem que a fome, a miséria e a guerra persistam até ao fim dos tempos porque não podem esquecer um texto, mal interpretado, do Génese. Os partidários entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a raça humana exterminada pela radioactividade do que chegar a um compromisso com o mal – capitalismo ou comunismo segundo o caso. Tudo isto são exemplos de fanatismo.
Em cada comunidade há um certo número de fanáticos por temperamento (o sublinhado é da minha responsabilidade!). Alguns desses fanáticos são essencialmente inofensivos e os outros não fazem mal enquanto os seus partidários forem pouco numerosos ou estiverem afastados do poder. Os «amish» na Pensilvânia pensam que é mau usar botões; isto é completamente inofensivo, salvo na medida em que revela um estado de espírito absurdo. Alguns protestantes extremistas gostariam de ressuscitar a perseguição aos católicos; essas pessoas só serão inofensivas enquanto forem em pequeno número. Para que o fanatismo se torne uma ameaça séria é preciso que possua bastantes partidários para pôr a paz em perigo, internamente por meio de uma guerra civil ou externamente por uma cruzada; ou quando, sem guerra civil, estabeleça uma Lei dos Santos que implique a perseguição e a estagnação mental. No passado, o melhor exemplo da história é o reinado da Igreja desde o século IV ao século XVI.
(…) Para curar o fanatismo – salvo nas aberrações raras dos indivíduos excêntricos – são necessárias três condições: segurança, prosperidade e educação liberal.»

Bertrand Russell, in “A Última Oportunidade do Homem”