“Fascismos?”

« (…) 5. Encontrei o prosseguimento desta ideia num texto do filósofo inglês John Gray, disponível na BBC. Nunca tinha lido Gray e descobri-o com aquela incredulidade de quem de repente lê aquilo em que anda a pensar. O meu amigo André Barata, que costuma dar Gray aos alunos da licenciatura em filosofia, fez-me chegar rapidamente A Morte da Utopia, editado na Guerra & Paz. Resumindo muito, Gray não acredita na história enquanto progresso, tal como ela foi moldada pelo pensamento bíblico crente num apocalipse salvador, mas sim numa história cíclica, em que a natureza humana volta de cada vez, com a sua nova roupa, para fazer o que sempre tem feito. Um exemplo disso, é o regresso do uso da tortura por potências democráticas, como os Estados Unidos. Resumindo tudo, não ficamos melhores.»

Alexandra Lucas Coelho em “O Fascismo com esta sua nova roupa

medeImage retrieved form Joseph Mede’s “Key of the Revelation”

(1627 era vulgaris, Religious and political ferment in England produces numerous apocalyptic tracts including Joseph Mede’s “Key of the Revelation”. The Key, translated from Latin into English in 1641 at the behest of Parliament, maps the end of history onto a complex graphical figure combining cyclical and linear forms.)

Algumas observações:

Srª Dona Alexandra Lucas Coelho,

A sua interpretação, e subsequente manipulação do conceito de Fascismo por si efectuada para a redacção deste seu artigo de opinião é totalmente descabida, demonstrando um enorme desconhecimento da História europeia do século XX. Ainda que, actualmente, a tentação de se ser “trendy” seja muito forte, entendo que, pelo menos, no desempenho das nossas funções profissionais, devemos utilizar o maior grau de precisão possível. Em abono da nossa credibilidade, certamente. Caso contrário, torna-se evidente o risco de um discurso próximo daquele que é praticado por alguma “esquerda caviar”, ou seja, de tudo e todos apelidarem de “faxistas” (não me refiro aos “operadores” de fax, acredite!). Tendo já sido acusado de ser muito “palavroso”, e não querendo correr esse risco novamente, remeto-a, por uma questão de economia de tempo, para a consulta da definição de Fascismo presente na Wikipedia, AQUI. Posteriormente, caso entenda por oportuno, poderá sempre optar pela consulta da bibliografia citada. Ou, em alternativa, repetir os 9ºs e 11º anos de escolaridade, mas, com frequência obrigatória da disciplina de História.

Quanto a John Gray, autor que, ao que parece, apenas conhece por interposta pessoa, devo dizer-lhe que o mesmo se encontra traduzido em Portugal há já bastante tempo. Para além d’” A Morte da Utopia” existe pelo menos um outro livro intitulado “Sobre Humanos e Outros Animais”, (“Straw Dogs”, no original) editado em 2007 pela Lua de Papel. Pode adquirir o mesmo, AQUI. Com o tempo, e alguma humildade, poderá constatar que o autor por si citado é encarado como uma espécie de autor da “nova direita” anglo-saxónica (a qual, para ser preciso, não existe). Leia, por favor, a entrada na Wikipedia, principalmente a secção “Criticism”, AQUI. Quando chegar a esta constatação poderá sempre optar pela aplicação de um antigo método estalinista, ou seja, edita o texto e elimina a referência ao autor em causa.
Acerca de um conceito de História cíclica, para além de começar a visitar este blogue com regularidade, poderá ler com bastante proveito autores como Mircea Eliade, Oswald Spengler ou até Arnold Toynbee (sendo que o desconhecimento destes autores por parte de pessoas que exercem a mesma profissão que a sua é, no mínimo, inaceitável).

Para finalizar: no seu texto aqui citado, refere ainda que “O ISIS já não se alimenta da banalidade do mal que sustentou o nazismo.”
Constato que está familiarizada com os escritos da filósofa Hannah Arendt, assim como os livros do psicanalista helvético-alemão, Arno Gruen (muito provavelmente também por interposta pessoa). Ainda assim, pergunto-lhe: O que é que me tem a dizer acerca da banalização do mal, e sua aplicação enquanto prática quotidiana na muito democrática República Portuguesa?
Para preparar a sua resposta aconselho a leitura da seguinte notícia intitulada, “ Dois doentes morreram à espera de dispositivo para coração no Hospital Santa Cruz”, publicada no Económico em 15 de Julho do corrente ano. Aconteceu aí, bem perto de Sintra, prazenteira localidade onde creio que a senhora reside (tenho conhecimento desta informação pelo facto de a mesma ter sido por si referenciada noutro texto seu), e não lá longe, no Médio Oriente/Ásia Central que a senhora começou a visitar a partir de 2001.

Pense nisso, por favor, e depois diga-me alguma coisa!

Com os melhores cumprimentos,

Júlio Mendes Rodrigo

 

Adenda:

Por lapso não referi que existe ainda um outro livro de Gray publicado no nosso país. Refiro-me ao “Al-Qaeda e o Significado de Ser Moderno”, editado já em 2004 pela Relógio d’Água. Pode adquirir o livro em causa, AQUI.
Na sinopse de apresentação da obra podemos ler o seguinte: «Para ele (Gray) o Islão radical é moderno e devedor das ideologias ocidentais, sendo a Al-Qaeda um dos mais inesperados e terríveis produtos da globalização». Discutível? Certamente! Mas ainda assim com uma opinião muito mais fundamentada e inteligente do que aquela que a senhora ousou efectuar.
(Só mais uma pequena achega. A sua opinião fez-me lembrar um acontecimento peculiar ocorrido na passada sexta-feira, dia 29 de Agosto, que passo a relatar: Perante a entrada numa loja com o intuito de comprar um saleiro, deparei-me com a existência de dois espécimes distintos no preço ainda que bastante próximos na aparência. A curiosidade fez com que eu indagasse a funcionária da respectiva loja acerca da diferença de valores entre ambos. Ao que a funcionária me retorquiu com uma solenidade majestosamente orgulhosa: «Sabe, é que um é gourmet e o outro não!»
Caramba! Senhora Dona Alexandra Lucas Coelho, um saleiro é um saleiro, com uma forma e função definidas (a isto chama-se design, certo?). E o Fascismo, por seu turno, é um fenómeno (à semelhança de muitos outros), extremamente complexo, mas circunscrito no tempo e no espaço (e a isto chama-se História, certo?). Não é apenas um conceito adaptável ao palato gourmet de alguns jornalistas trendy. Pense nisso!
Para finalizar, lembrei-me que possuo uma outra obra de John Gray intitulada “The Immortalization Commission: science and the strange quest to cheat death”. Costumo dar esta obra aos meus alunos de pós-doc em Ciências Ocultas e Correntes Esotéricas Ocidentais. À semelhança do seu amigo, também eu, lhe posso fazer chegar muito rapidamente os títulos em questão.