“À Rebours” ou “à espera de uma eventual reversão da inversão”

«A morte de uma abelha assassinada pela sua rainha está tão carregada de sentido como os massacres de Dachau.»

R. Abellio in “Os Olhos de Ezquiel Estão Abertos”

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Na minha perspectiva, o estudo de uma determinada disciplina, qualquer que ela seja, carece da existência ou inexistência da sua subordinação/insubordinação a um princípio homónimo, ou seja: à DISCIPLINA (aquela que não há, mas que devia haver!).
Desde criança que a minha atitude para com este conceito tem sido ambígua. Passo a explicar-me: (e não ‘passo-me’, pois que nos dias que correm, por vezes é necessário respirar bem fundo, procedendo simultaneamente à evocação/invocação de todas as entidades da vindoura Era do Aquário que porventura ainda se encontrem latentes – ou latejantes – na aparentemente esvaziada concha dos arquétipos), não creio ser daquele tipo de indivíduos que tenha problemas com um conceito de Disciplina emanado de acordo com os preceitos subjacentes a uma determinada hierarquia. Claro que, essa hierarquia, em princípio, tem de ser por mim “legitimada”. Quero com isto dizer que tenho que a re/conhecer em acordo/concordância com os princípios basilares da Ética e quiçá também da Moral. Sendo mais objectivo; posso afirmar que perante esta questão, gosto de levar sempre em linha de conta os imperativos categóricos kantianos. Por seu turno, a questão da disciplina, antecedida pelo prefixo auto, já tem mais que se lhe diga. Por exemplo, recordo-me de que no meu 11ºano de escolaridade fui aluno de 18 valores no âmbito da disciplina (estão a ver? aqui está ela, uma vez mais, a malfadada disciplina) de Língua Portuguesa. Dos autores impostos na disciplina, por exemplo Almeida Garret, Júlio Dinis e mais uns quantos de cujo nome agora não me recordo, apenas li o “Eurico, o Presbítero” de Alexandre Herculano. Claro! Esta era a única obra que, pelo seu carácter mais taciturno e brumoso, se encaixava na “angst – ruralidade” que caracterizava alguns dos traços da minha personalidade. Passo-me a explicar: É que em Penafiel, a estética urbano-depressiva dos Joy Division e da cena de Manchester apresentava muitas semelhanças com o smog londrino. Ou seja, não passava do alto do Sameiro. Ainda assim, os ecos românticos e pré-existencialistas das angústias do jovem Werther conseguiram contornar as fronteiras desse burgo (considerado por Leonardo Coimbra como uma prisão), chegando incólume a sua mensagem até à bucólica Croca. Recordo que Fausto também chegou pela mesma altura, fazendo-se acompanhar por Mefistófeles, claro!
Estão a ver, uma vez mais? A disciplina? Tenho sempre que me autodisciplinar para não fugir ao assunto. Creio que isto é fruto de um raciocínio espiralado, ou então, como diria a minha professora de português desse 11 º ano de escolaridade, labirinticamente kafkiano. Pois então, como repararam, eu fui dar uma volta quiçá demasiado elíptica para falar desse sistema simbólico-mântico conhecido como Tarot. Sistema ao qual, por falta de disciplina, talvez, ainda não consegui dedicar a minha melhor atenção.

pendu“Le Pendu”

Esta melhor atenção apresenta uma condição: requere sempre a necessidade de uma revelação da possibilidade de um reencontro com os deuses e seus tópoi, possibilitado apenas por via do ”Entusiasmo” (do grego en + theos, literalmente ’em Deus’), qualidade dos oráculos de acordo com as descrições efectuadas no âmbito do esoterismo grego. Ainda assim, existem alguns (leia-se poucos) autores que possuem o condão (cordão dourado) de, por linhas travessas é certo, conduzirem-me a este universo hermético, verdadeira “pista de dança” de arquétipos ancestrais. A título de exemplo posso referir Alberto Pimenta, através d’A Magia que tira os pecados do mundo, ou então, o meu mago negro predilecto, arauto de um novo aeon, que dá pelo nome de Aleister Crowley.
A primeira imagem que ilustra esta entrada intitula-se “Le Pendu”. Esta lâmina representa o Arcano XII do Tarot, e, por norma, é designada como “O Enforcado”. Aleister Crowley prefere a designação de “O Homem Pendurado”. A propósito desta carta, o mago inglês, na sua obra “O Livro de Thoth”, tece algumas considerações que entendo como sendo de especial relevância no âmbito do objectivo subjacente a esta entrada. Nesse sentido seleccionei um excerto que passarei a citar já de seguida. Segundo Crowley: «Esta carta é bela de uma maneira estranha, imemorial, moribunda. É a carta do Deus Que Morre; sua importância no presente baralho é simplesmente aquela do Cenotáfio. Ela diz: Se acontecer das coisas se tornarem más daquele jeito novamente, na nova Idade das Trevas que parece ameaçar, este é o modo de acertar as coisas.” Mas se as coisas têm de ser acertadas, isto indica que estão muito erradas (O SUBLINHADO É MEU). A principal meta dos sábios deveria ser livrar a espécie humana da insolência do auto-sacrifício, da calamidade da castidade; a fé tem que ser morta pela certeza e a castidade pelo êxtase.» (Para esta citação utilizei uma versão brasileira, edição conjunta das editoras Anubis/Madras). Todavia (e porque eu gosto muito de citações, à semelhança do Robert Burton), citarei ainda Alberto Pimenta que, na supracitada obra, também tece algumas considerações acerca desde arcano. Diz-nos o ilustre autor portuense que, «… o enforcado está de cabeça para baixo, e tem a perna direita dobrada. A cabeça está quase a tocar o chão, que é o lugar donde se erguem todos os labirintos, porque este enforcado representa o grande arquitecto, o da Torre de Babel, aquele que vai cair por ser soberbo, pelo pecado da hybris. Como a sua atenção é toda posta na terra, é para a terra que ele se dirige. É por um lado quase o Deus artifex, o conditor, fabricator; por outro lado é o que caiu ou vai cair. Um pouco baixo do céu… não, apesar de ser logo abaixo do céu, tudo isto parece superficial. Estes homens que caem porque subiram demasiado alto são uma trivialidade. E estão já todos implícitos no giro da roda, reis, marqueses, imperadores…» (O SUBLINHADO É MEU).

MussoliniHungBenito Mussolini e sua partnaire enquanto representações manifestas do Arcano XII

Pois muito bem. Escolhi esta carta do Tarot por um motivo muito simples; a tautologia do giro da roda. Parafraseando Luís Buñuel, acho que posso afirmar que «anda la muerte con mucho trabajo ultimamente”. Para além da morte de um político brasileiro (ainda por cima num Cessna, a mesma marca da avioneta em que nos idos de Dezembro de 1980 viajava Francisco de Sá Carneiro), morreram ainda duas lendas ou divas de Hollywood/ Babylon (para usar uma feliz expressão de Kenneth Anger). Acerca dessas duas figuras já correu muita tinta (ou se calhar, para ser mais pós – pós – meta – meta – moderno, já se criaram muitas hiperligações!), como tal, não me vou pronunciar acerca das mesmas. Ainda assim não resisto a citar aqui o mote que esteve na origem da mitificação de uma delas: CARPE DIEM!
Carpe Diem! Imagino que este também tenha sido o lema  de Emídio Rangel nos seus últimos dez anos de vida. A doença do “caranguejo” já lhe havia batido à porta em 2004, pelo que há uns meses atrás voltou a insistir e, desta vez, infelizmente, reclamou a vida do referido senhor. Pois bem, se todas as mortes são lamentáveis, ou quase todas pelo menos, o óbito por si, na minha opinião, nunca deve ser motivo de enaltecimento do falecido. Mas foi à exaltação e enaltecimento da carreira deste senhor que eu assisti nalguns meios de comunicação social, inclusive nesse pasquim de dá pelo nome de Público. Para mim, Emídio Rangel é o pai do Macaco Adriano. Como tal, e ainda pelo seu nefasto contributo na implementação de uma acefalia televisiva neste país, a sua memória não merece o meu respeito (muito gostaria eu de ouvir a opinião de Eduardo Cintra Torres acerca do papel de Rangel e do inenarrável cenário da televisão em Portugal nas duas décadas subsequentes à abertura dos dois canais (canis?) privados…).
Claro que, neste perpétuo girar da roda da vida, uns partem e outros ficam (verdade da la Palisse, certo?). É a lei da vida, dirão vocês! Sim, aquela que contribui para um conceito de História Cíclica. Claro que, no passo marcado pelo ritmo inexorável do Tempo, uns ficam desempregados e outros arranjam emprego! Verdade? Hum…Já não é bem assim, acho. A menos, claro, que tenhamos a sorte, ou o infortúnio (depende da perspectiva), de termos sido gerados por Durão Barroso. Acerca deste cavalheiro, infelizmente, não lhe posso apontar uma única característica positiva. Vejamos: maoísta na sua juventude (algo na moda à época, pelo menos por parte dos filhos mimados de alguns abastados burgueses), adere posteriormente à Social-democracia com vista a tornar-se primeiro-ministro, ambicionando secretamente ir para Bruxelas. Numa versão abreviada da história, foi isto que este cavalheiro fez, com a agravante de ter deixado o país “nas mãos” de um incompetentíssimo Santana Lopes (Agora na Santa Casa da Misericórdia). Mas, já ninguém se lembra pois não? Também ninguém se deve lembrar que este cavalheiro (Durão Barroso) nos seus primeiros meses de “trabalho” em Bruxelas foi alvo de chacota geral por parte dos seus pares. Um indivíduo pequenino transportado num enorme e poluente bólide alemão através das ruas da capital belga. Era assim que lá, longe, no centro da Europa se referiam ao “cherne”. Pois bem, Barroso voltou a captar a minha atenção. Por interposta pessoa, diga-se. Neste caso através do senhor o seu jovem filho (31 anos de idade, ou seja, menos 10 do que eu) que, por interposição do senhor seu pai, estou plenamente convencido, “ganhou” um emprego por convite no Banco de Portugal (vide notícia, AQUI). Mas, não tenhamos memória curta, que este caso não é inédito. Vou relembrar aqui um outro, desta vez, um pouco mais à “esquerda”. Refiro-me ao caso de Vera Sampaio, filha de Jorge Sampaio, antigo presidente da República Portuguesa, presidente que de acordo com afirmações próprias, terá lido todas as obras de V. Lenine que o senhor seu pai ocultava na garagem (Ah! É tão boa a Democracia…). Vera Sampaio, para além de ser filha do senhor referido anteriormente, para que não pensem que eu sou de intrigas, é também, professora Universitária. Mérito? Sim, claramente. Não fosse a cidadã ser detentora de uma licenciatura com uma média final de apenas 10 valores. Isso sim, já é estranho, não concordam? Mas, mais estranho ainda será o facto desta jovem cidadã ter também sido contratada como assessora do Senhor Doutor Manuel Pedro Cunha da Silva Pereira, distinto Ministro da Presidência no tempo do executivo liderado pelo também muito elevado senhor ENGENHEIRO José Sócrates (o senhor é pequenino, mas o engenheiro é grande, como convém).
E agora é chegada a hora de vocês me perguntarem, o que é que estes dois casos têm em comum, ou então, onde é que eu quero chegar? Tentarei responder da seguinte forma: Estes dois senhores, face mais visível de uma morbilidade cancerígena que tomou conta deste país, são verdadeiros déspotas esclarecidos. À semelhança de qualquer ditadorzito africano, também estes políticos colocaram a sua prole nas melhores escolas estrangeiras. E claro, oupas! Regressados à pátria querida (povoada por pategos) assumem os melhores cargos, pois que, como “estrangeirados” e “iluminados” que são, estão muito melhor preparados do que qualquer outro indivíduo que com eles partilhe a mesma nacionalidade. Eu tenho alguns adjectivos para aplicar a esta gente/atitude, são eles: Ignóbil, Asqueroso, Abjecto e Ignominioso. Vou ficar-me por aqui.

mussoliniMussolini & Friends

Voltando ao nepotismo, salvo seja😉
Em conversa acerca destes e outros assuntos com um amigo de longa data, foi sugerido que para este tipo de atitudes se deveria implementar uma espécie de tribunal secreto (Santa Vehm). Por meu turno eu lembrei-me ainda da L’Acephále, a sociedade secreta onde militou o filósofo francês Georges Bataille. Esta sociedade preconizava o combate ao Fascismo através do recurso a tácticas fascistas. Mas no que concerne às práticas de nepotismo aqui referidas neste post, considero que as mesmas são por demais abjectas. Como tal não merecem que sujemos as mãos. Ainda assim, tomo a liberdade de deixar aqui uma sugestão. Quase que como um devaneio de terrorismo eso-poético:
Quando virem estes indivíduos na rua, não hesitem, ESCARREM-LHES em cima! Creio que o Abade Meslier e o próprio Antonin Artaud iriam gostar dessa vossa atitude. E, na minha muito humilde opinião, esta é uma táctica bem mais eficaz do que, em manada, se cantarolar a “Grândola, Vila Morena”.
Quanto ao Tarot e ao seu Arcano número XII, “ O Enforcado”, lembremo-nos que a roda continuará sempre a girar, tal e qual como girou para Benito Mussolini e seus pares…
Os símbolos são meros emissários dos deuses, como tal, ciclicamente, abandonam os domínios do mito para fazerem uma fugaz, mas sempre eficaz, purga. É nessas alturas que Magia se torna Realidade! Nessas alturas, para os “reis, marqueses, imperadores”, o Tempo, não o esqueçamos, torna-se o verdadeiro Inimigo!
Aguardemos pois por este acto mágico libertador, simultaneamente legitimador das palavras de Alberto Pimenta e de Aleister Crowley, aqui citadas.

FIAT LUX!