“kämpferisch” Fashion

« Like Nietzsche and Wagner, Hitler regarded leadership as sexual master of the “feminine” masses, as rape. (The expression of the crowds in Triumph of the Will is one of ecstasy; the leader makes the crowd come.) »

Susan Sontag em “Fascinating Fascism”, ensaio que integra o volume “Under the Sign of Saturn)

1-000093a9_big 2-hoffman_hitler_1 3-hoffman_hitler_2Na entrada de ontem falei-vos de Lars von Trier. Hoje, ainda que por linhas travessas, diga-se de passagem, não resisti em fazer a associação entre ambos, pelos motivos que todos vós conheceis. Pois bem, as fotografias que ilustram este post são da autoria de Heinrich Hoffmann, fotógrafo pessoal de Adolf Hitler. Ao que consta, Hoffman, terá tirado cerca de dois milhões de fotografias do Führer, muitas delas com o intuito de ensaiar a coreografia que por norma acompanhava as suas intervenções públicas. Certamente que é incontestável o poder oratório do ditador germânico, aspecto fundamental para o sucesso granjeado na Alemanha das décadas de 20 e de 30 do passado século XX.
A visualização destas fotografias, aliadas à leitura do ensaio da escritora norte-americana, levou-me a reflectir acerca da postura e apresentação dos políticos portugueses. Por isso, lembrei-me da intervenção de Sérgio Sousa Pinto, o antigo jovem eurodeputado do PS no plenário parlamentar defendendo a acção governativa de José Sócrates, este último, por mim cognominado como “ o de Muito Má Memória”. Convido-vos, portanto, à visualização dessa mesma intervenção, AQUI. Se vos parecer oportuno, comparai ainda a interposição deste cavalheiro (apenas suplantada pela proverbial momice surreal do famoso Tino de Rans, também essa, AQUI.) com qualquer uma das do líder alemão. Convido-vos a descobrir as diferenças…
As cogitações, no entanto, não se ficaram por aqui. A frase em epígrafe de Susan Sontag trouxe-me à memória a recordação de um outro deputado da nação na Assembleia da República. Um dia perguntaram-me acerca da minha disponibilidade para, ocasionalmente, desempenhar as funções de personal stylist dessa figura, ao que eu anuí por uma questão de mera e momentânea cortesia. Quando tive a oportunidade de assistir a uma intervenção pública dessa pessoa constatei que a mesma era um caso perdido. Imaginem um elefante numa loja de porcelanas. Ou melhor ainda, o Sexta-Feira, parceiro de aventuras de Robinson Crusoe, a quem fosse solicitado que envergasse um traje de cavalheiro vitoriano, por exemplo. No caso da figura em questão, o desconforto experienciado dentro daquelas vestes (fato, camisa e gravata), fazia com que mesmo o melhor e mais dispendioso fato, ao fim de umas horas de uso, se parecesse com aqueles com que o Bryan Ferry (ex-Roxy Music), usava nos telediscos. Infelizmente, a Natureza, não foi tão generosa para o nosso deputado como o foi, de facto, para o cantor britânico. Pior, no entanto, foi quando tive a oportunidade de visionar um vídeo de uma intervenção desse mesmo deputado. Escolhido pelo seu círculo partidário para defender uma argumentação que o mesmo não dominava, nesse vídeo, podemos ver um ser simultaneamente assustado e transpirado. Após ter visto esse filme cheguei à conclusão que a assessoria que me tinha sido solicitada não tinha por fim último “embelezar” e tornar elegante o deputado com o intuito de seduzir o eleitorado. Não senhor, o que estava em causa era causar boa impressão junto dos seus “pares” palacianos.
Levando em linha de consideração este caso (de estudo), cheguei à seguinte conclusão: A massa que constitui o eleitorado nacional não precisa de ser cortejada pela “elite” política. Essa massa, partindo da subscrição da afirmação de Susan Sontag, anteriormente citada relativamente ao ditador alemão, na actualidade, atinge o orgasmo colectivo (e múltiplo) não através da ars oratoria dos políticos, mas sim através da catarse colectiva que é o Futebol. Para tal, fantasia-se e pinta-se, como uma rameira barata, embrutecida pelo voyeurismo sistemático a que se auto-expõe perante uma coreografia homoerótica protagonizada por 23 elementos ao longo de 90 minutos.
E assim se vai passando o tempo, neste território que não é um país, mas sim um sítio e ainda por cima, muito mal frequentado.

Adenda: Esqueci-me de acrescentar que o homenzinho (o tal deputado da nação à Assembleia da República), por lá contínua, como um xilófago, a tratar de vida. Da sua própria existência entenda-se, pois que, à semelhança dos seus restantes 229 colegas, também esta criaturazinha (um perfeito avatar do Zé Ninguém, magistralmente retratado por Wilhelm Reich) está-se completamente “nas tintas” para a vida dos seus concidadãos.

Como escreveu um dia alguém cujo nome agora não me recordo: “Está aqui um cheiro a curral que empesta!»