4:44 Last Day on Earth

«A serpente simboliza o caos, o amorfo, o não manipulado. Decapitá-la equivale a um acto de criação, passagem do virtual do amorfo ao formal. (…) A serpente primordial: símbolo das águas cósmicas, das trevas, da noite e da morte.»

Mircea Eliade in “O Sagrado e o Profano – a essência das religiões”

Rawson-caduceus-84-largeA minha predilecção pelo género de filmes vulgarmente designados de catástrofe/apocalípticos terá surgido pela época em que visionei pela primeira vez o “Towering Inferno” (1974). Este filme protagonizado pelo meu dilecto Steve McQueen e ainda por Paul Newman (actor pelo qual nunca granjeei grande admiração), deu-me a conhecer algumas das “guide-lines” pelas quais se orientam as estruturas narrativas do género. Não vou aqui enuncia-las, pois as mesmas são sobejamente conhecidas por todos. Ainda assim, destaco um aspecto: o factor humano. Melhor dizendo, este tipo de filmes (sempre que bem realizados, é certo), costumam ter o condão de possibilitar uma profunda reflexão em torno da nossa espécie. Cobardes que se transformam em heróis e supostos heróis que se transmutam em seres amorfos invertebrados mais próximos dos organismos gelatinosos existentes nas grandes profundidades oceânicas. Exagero um pouco, eu sei🙂
“4:44 Last Day on Earth”, filme realizado por Abel Ferrara em 2011, inclui-se, na minha opinião, dentro do género atrás referenciado. Ainda assim, distancia-se de todos restantes que já tive a oportunidade de visionar. O carácter inusitado deste filme em particular é o seguinte: perante uma tragédia anunciada, os motins, aos quais os “clichés” do género sofregamente adicionam fugas histéricas totalmente desnorteadas, simplesmente, não se se verificam. Este é substituído por uma mistura de expectativa, de apaziguamento, mas também, obviamente, nalguns casos em particular, de desespero. Desespero este, pode-se dizer, equivalente ao do escorpião que, vendo-se aprisionado dentro de um círculo de fogo, opta por uma morte voluntária em detrimento de uma combustão, que imagino, intua como atroz.
Este filme passa-se em Nova Iorque (único dejá-vu que em nada diminui o filme), e é protagonizado por Willem Dafoe (Cisco) e Shanyn Leigh (Skye). Aviso de antemão que (apenas aqueles que ainda não viram este filme, obviamente), nos primeiros minutos o espectador pode sentir um certo desconforto ao visualizar um Defoe, meio nu e a rastejar pelo chão. Ainda assim tal, sensação apenas poderá ser experienciada por quem viu “Anti-Christ” (2009) de Lars von Trier. Sosseguem-se desde já, uma vez que este filme não entra no universo caracterizado pela escalada voluptuosa da violência que caracteriza a obra-prima do realizador dinamarquês aqui evocado.  “4:44 Last Day on Earth” é, definitivamente, um filme realizado de forma sóbria e inteligente. A narrativa toma como epicentro a relação de duas pessoas (os protagonistas atrás referenciados) nas horas que antecedem a destruição do planeta. Na alvorada do novo dia (que não será desfrutado por nenhum ser vivo), às 4h: 44 minutos (Eastern Standard Time, para ser exacto), a camada de ozono que protege a Terra será destruída por via de radiações cósmicas e solares.
Uma outra nota merecedora de destaque é também a forma como o realizador norte-americano utiliza aquilo que designarei como “found footage”, onde se incluem declarações de personagens como o político Al Gore, o líder espiritual tibetano, Sua Santidade o Dalai Lama, e ainda “en passant” um já muito debilitado Nelson Mandela. Curiosa é também a maneira como é enfatizada a utilização das ferramentas digitais que fazem parte do nosso quotidiano. “I-phones” e “Laptops”, através da aplicação “Skype” servem, de certa forma, para diluir a angústia da morte enquanto acto solitário. Verifica-se ainda uma inusitada reminiscência da “ars moriendi” medieval numa sociedade “high-tech”, uma vez que as personagens despedem-se dos seus entes mais queridos através da utilização dos “gadgets” anteriormente referidos. Quiçá uma tradição em vias de ser recuperada mercê do 11 de Setembro, episódio em que inconscientemente começamos a questionar as nossas tão “pós-pós meta-meta” sociedades do conforto?
O momento mais belo do filme? (perguntam vocês, cheios de curiosidade). Definitivamente, os minutos finais (respondo-vos) em que os nossos protagonistas se encontram “protegidos” no interior de um círculo, que, na verdade, é uma espécie de Ouroboros = οὐροβόρος ὄφις, serpente que devora a própria cauda. Nesses momentos finais ambos encontram-se abraçados enquanto Skye pronuncia os seus votos de casamento.

Uma verdadeira obra-prima!

Atentai, por gentileza, no “trailer” do filme: