As Leis da Hospitalidade

«O anfitrião, por não ter mais urgente cuidado do que o de fazer irradiar a sua alegria por quem quer que, ao anoitecer, vinha comer à sua mesa e se repousar sobre o seu tecto das canseiras da viagem, aguarda com ansiedade nos umbrais de sua casa o estrangeiro que verá surgir no horizonte como um libertador. E do mais longe que o vir chegar, o anfitrião apresentar-se-á a gritar-lhe: «Entra depressa, pois tenho medo da minha felicidade.» Eis, porque, de antemão, o hospedeiro estimará todo aquele que, em vez de considerar a hospitalidade como um acidente na alma daquele e daquela que a oferecem, verá nela a própria essência do anfitrião e da anfitriã, vindo ele mesmo, estrangeiro, partilhar, como um terceiro, dessa essência a título de conviva. Porque o anfitrião procura no estrangeiro que recebe uma relação que não é acidental mas sim essencial. Um e outro não são senão, para começar, substâncias isoladas, sem comunicação entre si, a não ser puramente acidental: tu que te julgas longe de tua casa em casa de alguém que tu pensas que está em sua casa, apenas trazes contigo os acidentes da tua substância, na medida em que eles fazem de ti um estranho, àquele que te recebe em tudo aquilo que faz dele um mero anfitrião acidental.»

Pierre Klossovski em “Roberte-Nessa-Noite”

Figura 2_La Monnaie vivante_1970_Pierre Zucca“La Monnaie vivante” (1970) Pierre Zucca